SÃO PAULO – A mais de 40 metros de altura sobre as copas das árvores em Manaus, nuvens baixas serpenteiam a vegetação no inverno amazônico. “São os rios voadores, é a floresta respirando”, diz a guia – e já explico como chegar ali. Nós testemunhamos o nascimento dos rios voadores, carregados para o resto do Brasil pelo vento, responsáveis por regular o clima tropical que os brasileiros conhecem tão bem. É onde começa tudo isso.
Manaus é o ponto de partida para ver um tronco de árvore marcado pelas garras de uma onça-pintada e entrar em cavernas que parecem ter sido esculpidas. É uma viagem no tempo pelo Ciclo da Borracha com arquitetura eclética de grandes construções. É inesquecível também pela gastronomia versátil, desde formigas tanajuras ao pirarucu, o maior peixe de água doce do mundo.
Os passeios possíveis na capital amazonense são de selva e história: por um lado, Encontro das Águas, Museu da Amazônia, ecoturismo em grutas e cachoeiras; por outro, Teatro Amazonas, Palácio Rio Negro e Mercado Municipal. Mas é preciso planejar, porque o Estado não é sempre o mesmo e as experiências podem ser diferentes dependendo da época.
As estações do ano são trocadas em relação ao resto do Brasil e a dinâmica da floresta influencia completamente no tipo de passeio. No verão, de junho a novembro, a época seca favorece mais os passeios ao ar livre e, por isso, é alta temporada na região. O inverno amazônico, entre dezembro e maio, é o período mais chuvoso e, nos momentos de pico, os igapós (partes alagadas da floresta) ficam inundados.
Fiquei hospedada no Juma Ópera Hotel, no centro histórico de Manaus, em frente ao Teatro Amazonas e do Largo Sebastião, praça onde se concentram bares, restaurantes e lojas de artesanato. A diária para duas pessoas, no inverno amazônico, custa a partir de R$ 1,7 mil, segundo a Booking.com, plataforma de serviços turísticos que convidou o Viagem para este roteiro.
O hotel é bem localizado. Uma volta nos arredores é suficiente para se alimentar bem, tanto no restaurante Caxiri, para quem busca pratos mais elaborados, ou no Tambaqui de Banda, para quem quer aproveitar petiscos amazônicos e drinks diferentes.
Ainda na capital, na divisa que forma uma reta quase perfeita entre cidade e floresta, está o Museu da Amazônia (Musa), um espaço onde há estudo da biodiversidade (como na casa das serpentes e dos aracnídeos), exposições, trilhas e uma torre de observação com cerca de 40 metros de altura. É desse ponto que dá para ter noção do tamanho da floresta, numa extensão visual verde até a linha do horizonte. E, pelo menos no inverno regional – estive lá em janeiro -, também é possível visualizar os rios voadores, conforme descrevi no início do texto.
“Essa coloração branca, que parece fumaça saindo das árvores, se chama evapotranspiração. A floresta leva água para a atmosfera, formando os rios voadores que circulam por todo o Brasil. São eles que levam a chuva. Se há desmatamento e queimada, o ambiente fica mais quente e causa um desequilíbrio da floresta, principalmente nessa fase do processo. Por isso, é importante a preservação e a conscientização de que a Amazônia é vida”, explica a guia Socorro Barroso.
O Musa, por estar dentro de uma reserva ambiental de aproximadamente 10 mil hectares dentro da Floresta Amazônica, concentra diversidade de animais e plantas preservadas da floresta nativa. No inverno amazônico, por conta das chuvas, a observação dos animais silvestres pode ficar comprometida, já que eles tendem a se dispersar pela mata.
É por essa razão, também, que muitos deixam para visitar a região durante o período de verão local. A proximidade com parte da fauna local, neste passeio em específico, se restringiu às casas de estudo dentro do museu, onde é possível observar aracnídeos e serpentes em um ambiente controlado. O valor da entrada no museu é a partir de R$ 40 com guia.
Ter o primeiro contato com a floresta nativa pelo Musa é uma ótima oportunidade para quem nunca esteve na Amazônia. Numa parte da trilha até a torre, fomos orientados a não encostar direto nas árvores, porque podem ter aranhas, por exemplo.
Também a não andar nas margens das trilhas, onde não é possível observar se há serpentes ou outros bichos rastejantes. Principalmente, aprendemos a ouvir a floresta. Apesar dos bichos estarem escondidos com a chuva, os barulhos eram muito persistentes e nosso barulho também poderia influenciar na vida dos animais.
Essas dicas e esse treinamento numa parte controlada da reserva me prepararam para o próximo programa, em Presidente Figueiredo, cidade vizinha à capital, onde passei o dia dentro da Amazônia. Dessa vez, o nível de dificuldade das trilhas era um pouco maior, somado com a escorregadia terra molhada, partes mais íngremes e descidas sem muito apoio.
A principal dificuldade, sem dúvidas, foi o clima abafado da região. Mesmo no chamado inverno e com chuva refrescante, ainda fazia muito calor debaixo das copas das árvores, tão fechadas que não deixavam o vento nem a chuva passar – o que foi, em parte, muito bom, já que as árvores seguravam parte da água e não nos deixavam completamente encharcados.
Ao longo da temporada de verão regional, com o clima seco, o calor pode piorar. Embora existisse certa dificuldade em lidar com o tempo ruim. Há um ponto positivo para anotar: a chuva e os dias nublados amenizam essa sensação térmica.
A primeira parada do dia em Presidente Figueiredo foi na Caverna do Maroaga e na Gruta da Judeia, localizadas na mesma reserva ambiental. Em alguns momentos do percurso, o acesso ocorre por trilha alagada; aqui é obrigatório o uso de sapatilhas aquáticas. Ambos os pontos turísticos são conhecidos pelas formações rochosas, pelas quedas d’água e pelos morcegos que se aproveitam da escuridão.
O que mais ouvi foi canto de ave, principalmente do capitão-do-mato, conhecido também como cricrió, o que muitos dizem ser o “som da Amazônia”, com canto alto e fino. Durante a trilha, um dos momentos mais simbólicos foi encontrar uma árvore marcada pelas garras de onça-pintada. Os troncos com arranhões profundos e compridos deram a dimensão real desse mamífero – e frio na barriga.
Seguindo o roteiro na cidade, a Cachoeira de Iracema é outro ponto turístico conhecido, que estava com correnteza forte e quedas d’água mais cheias por causa do período chuvoso. Mesmo assim, contava com várias partes rasas entre as pedras, onde é possível se banhar com mais segurança.
O último trecho visitado foi o Rio Vermelho e a Lagoa Cristalina, essa bem diferente das correntezas da cachoeira, parece ser uma piscina no meio da floresta, com água azul e areia branca. O passeio pelas agências de turismo da cidade, com guia local, custa entre R$ 450 e R$ 550 por pessoa, para uma excursão de aproximadamente oito horas de duração passando por esses pontos e incluindo almoço em um restaurante local.
A pedida para finalizar o dia de imersão na floresta foi o jantar no Banzeiro, que possui uma filial em São Paulo, incluída pelo Guia Michelin em sua lista Bib Gourmain, categoria designada a casa com a melhor relação qualidade-preço.
O restaurante do chef Felipe Schaedler é referência em gastronomia amazônica, lugar para provar sua famosa receita de formiga saúva com espuma de mandioquinha. O cardápio conta com pratos bem servidos, entre eles, tambaqui com crosta de castanha e banana assada, pirarucu gratinado, moqueca de banana, camarão e tacacá.
A cerca de 13 km de Manaus navegando pelo Rio Negro está um dos fenômenos mais conhecidos da Amazônia: o encontro com o Rio Solimões. A diferença de temperatura, de densidade e de velocidade entre eles faz com que não se misturem imediatamente, deixando a água dividida com uma parte mais escura, do Negro, e outra barrenta, do Solimões.
É nesse ponto que começa a formação do Rio Amazonas, que vai desaguar no Atlântico entre o Pará e o Amapá. Embora a diferença de cores seja mais nítida no verão amazônico, o Encontro das Águas é visível o ano inteiro, então, mesmo na época de cheia e chuva, foi possível ver com clareza a divisão.
Durante o passeio de barco, é comum que os guias peçam para os turistas colocarem a mão na água enquanto o barco navega na divisa dos dois rios, para perceber as diferenças, principalmente de temperatura: há um choque ao sair do Rio Negro e sentir o Rio Solimões muito mais frio e denso. Esse percurso onde as águas ainda estão divididas se estende por cerca de 6 km.
O passeio, que custa em média R$ 200 por pessoa e dura uma manhã, tem parada para almoço em um dos restaurantes ribeirinhos das comunidades próximas do Rio Negro. Na mesma região, que é chamada de zona de várzea, porque fica metade do ano alagada – no inverno amazônico -, está a sumaúma, conhecida como a árvore-mãe da Amazônia pelas suas raízes grandes.
Mesmo no período chuvoso, quando geralmente as raízes ficam cobertas pela floresta alagada, ainda foi possível conhecer a árvore antes da cheia do rio. No Musa, também pode ser vista uma sumaúma em uma das trilhas.
Saindo da parte verde e voltando para a ilha urbana do Amazonas, o passeio histórico e cultural por Manaus revela um tempo de ascensão econômica da cidade e forte influência europeia. Uma das construções mais imponentes de Manaus e provavelmente será a primeira coisa a se observar, caso você se hospede no Centro, assim como eu: o Teatro Amazonas, com a cúpula em verde e amarelo e paredes em tom de rosa.
Com referências renascentistas, preserva a arquitetura eclética da época do Ciclo da Borracha, o mesmo a se observar no Palácio Rio Negro. Antiga sede do governo do Amazonas, a construção hoje também é tombada como patrimônio cultural e concentra exposições gratuitas. No teatro, os ingressos custam R$ 20.
Manaus foi apelidada de Paris dos Trópicos, no auge de seu desenvolvimento econômico entre o fim do século 19 e início do 20, apogeu da extração da borracha. Não à toa, boa parte dos materiais para a construção do Teatro Amazonas, considerado símbolo desta época, veio da Europa.
O interior da cúpula, acima do palco e da plateia, foi inspirado no desenho da Torre Eiffel, como se o monumento francês emergisse do teatro para quem olha debaixo. O Salão Nobre, no segundo andar, onde eram realizados os grandes eventos sociais da época, oferece uma imersão renascentista, pintado das paredes até o teto pelo italiano Domenico de Angelis.
E tem, ainda, os detalhes curiosos. Debaixo dos assentos, existia um “sistema de ar-condicionado” natural. A massa de ar frio entrava por discos metálicos posicionados no chão, entre os lugares da plateia; e por cima, na cúpula, o ar quente saía por algumas aberturas circulares.
Na rua ao lado do teatro, feita de paralelepípedo, é possível observar uma parte mais escura que a outra, preservada ainda do século passado: eram os paralelepípedos revestidos de borracha, para evitar que o barulho das carruagens atrapalhasse o espetáculo dentro do prédio. Outro aspecto imperdível é a maquete feita de Lego, réplica do Amazonas enviada da fábrica na Dinamarca, quando a empresa inaugurou uma sede na cidade, na década de 1980.
Também no Centro, o Porto Escadaria dos Remédios, conhecido hoje como Escadaria da Manaus Moderna, ainda é o principal acesso à capital para outros municípios e comunidades do Rio Negro. Foi um marco no desenvolvimento da cidade durante o Ciclo da Borracha pelo elo comercial que representou.
Nas embarcações tradicionais na Amazônia, geralmente com mais de um andar, é comum ver redes penduradas onde os viajantes dormem enquanto levam dias até chegar aos seus destinos. Os barcos trazem não só pessoas, mas as mercadorias que abastecem o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, localizado em frente ao porto.
Farinha de tapioca, camarão seco, geleia de açaí e cachaça de jambu são exemplos de produtos regionais encontrados no mercado. Há muito artesanato, também: pulseiras e cordões feitos de sementes, bolsas e artigos de decoração de palha e madeira, sabonetes e esfoliantes naturais, brinquedos como jogos de dama e um apito com regulador que imita som de pássaros.
É interessante que o Mercado tenha duas fachadas completamente distintas: a de frente para o Rio Negro, que abriga um restaurante de frutos do mar, é simples e industrial; e a virada para a cidade revela a identidade do Ciclo da Borracha. Tem arquitetura semelhante à de outras construções antigas mencionadas acima, mas com uma pitada de art-nouveau, influência europeia também importada para a Paris dos Trópicos.
Manaus está entre os destinos do mundo com maior aumento de reservas, de acordo com uma pesquisa da Booking.com. A plataforma separou os mil destinos que mais cresceram globalmente e, por meio de uma curadoria para garantir a diversidade geográfica da lista, apostou em dez como tendência para 2026, sendo Manaus o único brasileiro.
“Há um interesse crescente dos viajantes pela Região Norte do Brasil. As pessoas buscam experiências autênticas e conexão real com a natureza. O turismo está mudando de cara. A gente está vendo o crescimento de destinos menos óbvios. O viajante atual está mais aberto ao mundo”, afirma Luiz Cegato, gerente de Comunicação da Booking.com para a América Latina.
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