Apicultura impulsiona renda e fortalece economia sustentável no Amazonas – A Crítica

Produção de mel gera oportunidades para famílias do interior, incentiva a preservação ambiental e movimenta comunidades rurais
(Foto: Reprodução)
Pequenas no tamanho, mas gigantes em importância para a natureza e para a economia, as abelhas vêm transformando a realidade de famílias do interior do Amazonas. Além de desempenharem papel fundamental na polinização das plantas, esses insetos impulsionam a produção de mel, geram renda e fortalecem iniciativas de desenvolvimento sustentável em comunidades rurais.
A cerca de 90 quilômetros de Manaus, no município de Rio Preto da Eva, agricultores familiares têm encontrado na meliponicultura — a criação de abelhas sem ferrão — uma alternativa para diversificar a produção e ampliar a renda. Na comunidade Ebenezer, o produtor rural Valter Trottier é um dos exemplos de como a atividade pode caminhar lado a lado com a conservação da floresta.
A mudança começou durante a pandemia, quando ele e a família deixaram a cidade para viver em uma área rural. O objetivo era construir um sistema agroflorestal e investir na criação de abelhas sem ferrão. Hoje, o sítio se tornou uma referência para outros produtores interessados na atividade.
“O mel tem esse poder, não só medicinal, mas também de trazer fonte de renda para as pessoas que moram no interior”, destaca o produtor.
O projeto desenvolvido na comunidade conta com apoio da Prefeitura de Rio Preto da Eva, por meio da Secretaria Municipal de Produção, além da parceria com órgãos de assistência técnica. A iniciativa busca ampliar o número de produtores e incentivar a criação de abelhas tanto para iniciantes quanto para quem já atua na área.
A meta é atender, nos próximos meses, cerca de 100 famílias, distribuídas entre diferentes perfis de produtores. Além da criação de abelhas sem ferrão, o projeto também contempla a apicultura tradicional, realizada com abelhas africanizadas.
Dados do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam) apontam que, em 2025, 1.148 meliponicultores produziram mais de 52 mil toneladas de mel no estado.
Entre os municípios que mais se destacam na atividade estão Boa Vista do Ramos, Borba, Maués, Iranduba e Rio Preto da Eva. O instituto oferece apoio aos produtores por meio de regularização documental, assistência técnica e capacitação.
Além do mel, a atividade permite a comercialização de outros produtos derivados das colmeias, como própolis, pólen e cerume.
Segundo os criadores, alguns dos méis produzidos por abelhas nativas da Amazônia estão entre os mais valorizados do mundo. Procurados por chefs da alta gastronomia, esses produtos possuem características únicas de sabor e aroma, resultado da biodiversidade amazônica.
Apesar do potencial, os produtores ainda enfrentam desafios para ampliar a escala de produção e acessar mercados mais exigentes.
“Precisamos valorizar os nossos produtos. Esse é um dos méis mais saborosos e raros do mundo, mas ainda estamos construindo caminhos para chegar aos grandes mercados”, afirma Valter.
A criação de abelhas sem ferrão também contribui para a recuperação de áreas degradadas e para o fortalecimento dos sistemas agroflorestais. No sítio da comunidade Ebenezer, a produção ocorre integrada ao cultivo de frutas, hortaliças e espécies florestais.
O modelo garante alimentos para as famílias e abastece feiras realizadas na própria comunidade e na sede do município.
“Hoje nossa fonte de renda vem da agricultura. É do nosso trabalho, do nosso plantio e do cuidado com a terra que tiramos o sustento da família”, relata o produtor.
Além do valor econômico, o mel mantém viva uma tradição presente há gerações na Amazônia. O produto continua sendo utilizado como remédio caseiro e ingrediente de receitas populares.
A aposentada Maria da Conceição conta que aprendeu com a avó a utilizar o mel em misturas com óleos vegetais para aliviar problemas respiratórios e inflamações.
“É uma coisa natural e que traz muitos benefícios. Aprendi isso com a minha avó”, lembra.
Apesar do crescimento da atividade, produtores apontam dificuldades relacionadas à burocracia e à regularização da produção.
Para eles, políticas públicas mais adequadas à realidade da agricultura familiar poderiam estimular ainda mais o setor, que alia geração de renda, preservação ambiental e fortalecimento das comunidades rurais.
Enquanto os desafios persistem, as abelhas seguem ensinando uma lição valiosa aos produtores: a importância do trabalho coletivo.
“Elas não vivem apenas para si. Trabalham juntas para que toda a colônia prospere. É assim que procuramos viver e trabalhar aqui também”, resume Valter.
Entre colmeias, flores e sistemas agroflorestais, famílias amazonenses mostram que desenvolvimento econômico e preservação ambiental podem caminhar lado a lado, tendo as abelhas como protagonistas dessa transformação.

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