Área do Aeroporto de Manaus não atende nem 10% das novas indústrias, alerta ex-presidente do IMMU – A Crítica

Engenheiro Manoel Paiva afirma que terreno oferecido para expansão da Zona Franca é insuficiente e defende debate amplo sobre mobilidade, logística e ocupação urbana
Engenheiro Manoel Paiva afirmou que é preciso procurar uma solução para a implantação de novas fábricas que fuja da fórmula de “resolver de forma emergencial” (Fotos: Divulgação e arquivo)
O engenheiro de trânsito Manoel Paiva avaliou que a área oferecida na região do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes não supre 10% da necessidade das 200 novas empresas que deverão se instalar na Zona Franca de Manaus (ZFM) nos próximos anos. A possibilidade, apresentada pela concessionária do aeroporto, ocorre em meio à falta de terras disponíveis no Polo Industrial de Manaus (PIM) para a instalação das indústrias.
Segundo o especialista, que já dirigiu o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), é preciso procurar uma solução que fuja da fórmula de “resolver de forma emergencial”, sendo necessário unir todos os entes interessados para discutir um novo modelo de ocupação do PIM, algo decisivo demais “para nós simplificarmos com a área do aeroporto internacional”.
Manoel Paiva avalia que o modelo adotado nos primórdios da ZFM, em que se optou por ocupar a cidade seletivamente através de um Distrito Industrial, gerou ganhos para a região, mas também perdas pela limitação do espaço. Para hoje, é preciso pensar uma nova forma de ocupar a cidade.
“Seja qual for a solução, sempre nós vamos ter que pensar na logística e na mobilidade de cargas e passageiros. A gente tem que ter um projeto maior, tem que envolver muito mais gente. A principal dúvida é: nós queremos repetir o mesmo modelo que foi na década de 70?”, questionou.
Ele lembra que o modelo adotado do Distrito Industrial fez com que Manaus fosse a única capital onde o transporte de fretamento é quase 100% superior ao transporte público de passageiros. Hoje, mais de 2 mil ônibus atendem a região para garantir a ida e volta de 130 mil empregados nas quase 550 empresas do PIM. O aumento de outras 200 no modelo aumentaria em quase 50% a necessidade de deslocamento de pessoas.
O especialista vem conduzindo um estudo em conjunto com outras pessoas voltadas à mobilidade urbana que trabalha com três possibilidades para mitigar os desafios da ocupação das indústrias em Manaus.
A primeira delas, considerada a mais fácil, é ocupar as margens da rodovia AM-010, crescendo no Eixo Norte, onde já existe uma população trabalhadora das indústrias, assim como da zona Leste da capital.
A segunda alternativa, apontada como intermediária, é realizar um zoneamento de acordo com o tipo de indústria que pretende se instalar e distribuí-las ao longo da cidade, ocupando espaços vazios entre as indústrias atuais e as zonas residenciais, com plantas não poluentes.
A terceira opção, considerada a ideal, seria desapropriar áreas de irregularidades e criar um novo bairro planejado especificamente para acolher e alocar essas novas indústrias dentro dos limites da cidade, dando como exemplo a região dos arredores do Museu da Amazônia (Musa), com a criação de um parque industrial e tecnológico no entorno do museu para protegê-lo de invasões.
Além da ocupação das indústrias, Manoel Paiva levanta ainda o questionamento sobre o deslocamento dos trabalhadores e a qualidade de vida da população, especialmente em meio a discussões nacionais como o fim da escala 6×1.
“Nós queremos fazer com que essas pessoas se desloquem do trabalho para casa e da casa para o trabalho como é em São Paulo, em que ela passa três horas dentro do ônibus na ida e na volta? E a qualidade de vida? E a família? Tudo isso precisa ser debatido e colocado na balança, não tem uma solução simplista”, enfatizou.
O especialista destacou também que é necessária a participação de todos os entes públicos e privados na discussão, não apenas a Prefeitura de Manaus com o Plano Diretor, mas também o Governo do Amazonas, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e os representantes da indústria e comércio.
Ainda há a urgência para resolução da questão, já que se o problema dos territórios não for resolvido em tempo hábil, as empresas poderão trocar a ZFM por outros países onde investir é menos custoso, como o Uruguai e o Paraguai.
Na terça-feira, a Frente Parlamentar em Defesa da Zona Franca de Manaus, da Câmara Municipal de Manaus (CMM), discutiu propostas relacionadas ao Plano Diretor e ao fortalecimento do PIM.
O encontro foi conduzido pelo presidente do colegiado, vereador Rodrigo Sá (PP), e contou com a participação dos vereadores Diego Afonso (União), Ivo Neto (Democrata), Paulo Tyrone (Democrata) e Zé Ricardo (PT).
Entre os principais assuntos discutidos estão a necessidade de criação de novas áreas para instalação de indústrias com projetos já aprovados, a qualificação de mão de obra para atender às futuras demandas do setor produtivo e a melhoria da infraestrutura do Distrito Industrial.
“A prefeitura tem papel fundamental nesse processo, garantindo infraestrutura adequada, como asfalto, drenagem e limpeza pública. O nosso objetivo é que a audiência pública resulte em encaminhamentos concretos, com responsabilidades definidas para cada instituição envolvida, para que possamos avançar em soluções efetivas para a Zona Franca de Manaus”, ressaltou Rodrigo Sá.
‘Com certeza é uma oportunidade para alguns’
O engenheiro de transportes Augusto César Barreto Rocha, coordenador da comissão de Logística do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), lembrou que o conceito de “aeroporto indústria” já foi debatido várias vezes em Manaus, especialmente para o Aeroporto de Ponta Pelada, próximo do Distrito Industrial I.
Para ele, retomar a ideia para as indústrias selecionadas pode ser interessante, mas o foco da indústria deverá ficar em insumos e clientes voltados para o setor aéreo. Como o espaço disponível no Aeroporto Eduardo Gomes não é tão amplo, “com certeza é uma oportunidade para alguns tipos particulares de empresas de alto valor agregado, mas baixo volume de insumos nacionais”.
“Neste contexto, há oportunidade, considerando, em especial a proximidade da AM-010 e BR-174, com uma ampla agilidade do posicionamento estratégico no aeroporto. As adaptações certamente seriam necessárias, mas sem saber o tipo de indústria interessada neste modelo, seria meramente especulativo. Há de se verificar também se o atual contrato de concessão permitiria essa modalidade de operação”, completou.
Segundo o superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, a área de aproximadamente 8 milhões de metros quadrados nas proximidades do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes foi oferecida para a implantação de novas indústrias da ZFM pela Concessionária dos Aeroportos da Amazônia, controlada pelo grupo VINCI Airports, gerida atualmente pelo CEO Kleyton Mendes.

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