Participação feminina cresce 43% e impulsiona mudanças na gestão cooperativa do Amazonas
O cooperativismo amazonense encerrou 2024 em um movimento de contrastes. Enquanto o número de cooperativas avançou, os principais indicadores financeiros registraram retração, revelando um setor que cresce em estrutura, mas ainda busca consolidar sua base econômica.
Com 94 cooperativas ativas, acima das 89 registradas no ano anterior, o estado mantém trajetória de expansão institucional. Ao mesmo tempo, a base de cooperados recuou e indicadores como ingressos, ativo total e capital social apresentaram queda relevante no período recente.
É nesse contexto que se insere a análise de Petrúcio Magalhães Jr., presidente do Sistema OCB/AM, em entrevista exclusiva à MundoCoop. Para ele, compreender o cooperativismo como modelo de negócio é condição fundamental para ampliar sua competitividade e consolidar seu papel na economia estadual.
“O primeiro ponto fundamental é compreender que a cooperativa é, antes de tudo, um modelo de negócio, não uma ação filantrópica. Essa mudança de mentalidade é essencial para consolidar o cooperativismo como um pilar estratégico da economia no Amazonas”, afirma.
O avanço no número de cooperativas ocorre em paralelo a uma reconfiguração da base social. A redução do total de cooperados, combinada à criação de novas organizações, sugere um ambiente de reorganização, em que a expansão institucional não se traduz automaticamente em crescimento da participação.
A distribuição por tempo de atuação reforça essa leitura. Das 94 cooperativas, 54 têm até 15 anos de existência, sendo 20 criadas nos últimos cinco anos. O dado indica renovação do setor, mas também evidencia o desafio de consolidar empreendimentos ainda em estágio inicial de maturidade.
A sustentabilidade do setor, segundo o presidente do Sistema OCB/AM, depende menos da criação de novas estruturas e mais da qualidade das já existentes. “Mais do que a quantidade de cooperativas, o fator determinante é a qualidade dos empreendimentos coletivos, sua capacidade de gestão, de inovar e de se manter competitivos diante das crises e dos desafios de mercado”, destaca.
Os indicadores financeiros evidenciam o esforço de reorganização. Entre 2022 e 2024, os ingressos caíram de R$ 784,2 milhões para R$ 294 milhões, enquanto o ativo total recuou de R$ 1,2 bilhão para R$ 721,4 milhões. O capital social acompanhou esse movimento.
A retração impacta diretamente a capacidade de investimento das cooperativas, limitando avanços em infraestrutura, tecnologia e agregação de valor à produção. No entanto, o Anuário 2025 apresentou um sinal de inflexão. Após dois anos consecutivos de desempenho negativo, o setor voltou a registrar resultado positivo em 2024, com R$ 57,7 milhões em sobras.
Na avaliação de Magalhães Jr., a ampliação do acesso a crédito e assistência técnica é decisiva nesse processo. “Não há desenvolvimento consistente sem a presença efetiva de fomento. É essencial que os recursos dos agentes financeiros cheguem, de fato, à ponta, acompanhados de assistência técnica e extensão rural contínuas”, afirma.
O avanço do cooperativismo no estado ocorre de forma concentrada. Os ramos agropecuário e de crédito assumem papel central na dinâmica econômica regional, liderando a organização produtiva, ampliando o acesso a financiamento e estruturando cadeias locais.
Apesar dos avanços, o ritmo de desenvolvimento ainda é limitado. A diferença em relação a regiões mais consolidadas impacta diretamente a competitividade das cooperativas amazonenses. “É importante reconhecer que esse crescimento ainda é modesto quando comparado a regiões mais consolidadas do agronegócio, como Sul e Sudeste do país, onde o cooperativismo se desenvolveu com maior acesso a investimentos estruturantes, especialmente na agroindustrialização”, observa.
A dinâmica territorial molda o cooperativismo no Amazonas, onde grandes distâncias, limitações logísticas e dispersão populacional exigem soluções adaptadas à realidade local.
Nesse cenário, cadeias produtivas ligadas à bioeconomia, como açaí, café, guaraná, cacau e aquicultura, ganham relevância como base da atuação cooperativista. Ao organizar a produção e ampliar escala, as cooperativas contribuem para estruturar a economia em regiões onde alternativas formais são mais limitadas.
O modelo também se conecta a práticas já presentes nas comunidades amazônicas, o que favorece sua adoção e continuidade. Essa aderência ocorre não apenas no plano produtivo, mas também na forma de organização social, em que o trabalho coletivo e a gestão compartilhada já fazem parte do cotidiano dessas populações.
Esse alinhamento, na visão do presidente do Sistema OCB/AM, amplia a capacidade de permanência do cooperativismo no território e fortalece sua conexão com a realidade local. “O cooperativismo dialoga com práticas já presentes nas comunidades amazônicas, como o trabalho coletivo e a gestão compartilhada. Esse alinhamento fortalece sua adoção e contribui para a diversificação da matriz econômica, a geração de emprego e renda e a melhoria da qualidade de vida, respeitando as dinâmicas sociais e ambientais da região”, explica.
Os desafios logísticos permanecem e impactam custos, acesso a mercados e competitividade. Ainda assim, o cooperativismo se consolida como alternativa viável para organizar a produção no interior do estado.
A transformação do setor também se reflete na governança. A participação de pessoas jurídicas no quadro social cresceu de forma significativa, passando de 2,72% em 2023 para 10,51% em 2024. O movimento indica maior complexidade organizacional e potencial para ampliar escala.
Esse crescimento, segundo o dirigente, está associado a iniciativas estruturadas de incentivo à equidade e ao fortalecimento da participação feminina. “O avanço da participação feminina no cooperativismo amazonense é resultado de um conjunto de iniciativas intencionais, especialmente voltadas à promoção da equidade de gênero e ao fortalecimento do protagonismo das mulheres”, afirma.
Apesar dos avanços, o cooperativismo amazonense ainda enfrenta limitações estruturais relevantes. A restrição de investimentos, a necessidade de avançar na agroindustrialização e a dependência de políticas públicas seguem como fatores críticos.
A consolidação do setor passa pela capacidade de transformar organização produtiva em valor econômico, ampliando produtividade, agregação de valor e inserção em mercados mais competitivos.
No Amazonas, o avanço do cooperativismo tende a ocorrer mais pela consolidação de estruturas capazes de responder às condições do território. A capacidade de articular produção, investimento e governança é determinante para transformar o potencial do setor no estado.
Por João Victor – Redação MundoCoop
Matéria exclusiva publicada na edição 131 da Revista MundoCoop
ANUNCIE: [email protected]
TEL: (11) 99187-7208
•
ENVIE SUA PAUTA:
[email protected]



1999 – 2025 – © MUNDOCOOP. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.
1999 – 2025 – © MUNDOCOOP. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.










Deixe o Seu Comentário