Por Fabiano Bó*
Publicado em: 23/05/2026 às 13:25 | Atualizado em: 23/05/2026 às 13:25
O Brasil se acostumou a discutir a Amazônia a partir de mapas, relatórios internacionais e discursos ambientais, mas ainda conhece pouco da realidade concreta de quem vive e produz na região. No Amazonas, essa desconexão se tornou estrutural. O produtor rural amazonense permanece praticamente invisível no debate econômico nacional, embora sustente cadeias produtivas essenciais para o abastecimento regional e para a sobrevivência econômica de dezenas de municípios do interior.
Enquanto o agronegócio brasileiro é frequentemente associado às grandes fronteiras agrícolas do Centro-Oeste, existe uma Amazônia produtiva que opera sob condições infinitamente mais complexas, marcada por isolamento logístico, dependência fluvial, altos custos operacionais e vulnerabilidade climática permanente. Ainda assim, essa produção raramente aparece no centro das discussões sobre desenvolvimento, infraestrutura ou segurança alimentar no país.
Produzir no Amazonas exige enfrentar obstáculos que ultrapassam qualquer parâmetro convencional de competitividade. Em boa parte do estado, os rios funcionam como estradas, portos e corredores de abastecimento. Quando a estiagem severa interrompe esse fluxo, não há apenas impacto ambiental. Há paralisação econômica. Em 2023, o Rio Negro atingiu em Manaus a menor marca em mais de um século de monitoramento, chegando a 12,70 metros, segundo dados oficiais do Porto de Manaus.
Entretanto, a seca de 2023 acabaria sendo ultrapassada pela estiagem de 2024, considerada por especialistas e autoridades como a “seca do recorde”, consolidando um cenário climático sem precedentes recentes na história amazônica. A seca histórica comprometeu o transporte de cargas, dificultou o abastecimento de municípios, elevou custos logísticos e expôs a fragilidade estrutural de uma economia que depende diretamente da navegabilidade dos rios para funcionar. Enquanto outras regiões enfrentam gargalos rodoviários, o produtor amazonense convive com o risco concreto de isolamento territorial provocado por eventos climáticos extremos que se tornaram cada vez mais frequentes na Amazônia.
Mesmo diante desse cenário, o campo amazonense continua produzindo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Amazonas produziu mais de 1,3 milhão de toneladas de mandioca em 2023, por exemplo, mantendo-se entre os maiores produtores da Região Norte, além de registrar forte presença na produção de banana, açaí e guaraná, culturas diretamente ligadas à dinâmica econômica do interior e à agricultura familiar.
O estado também consolidou sua relevância regional na piscicultura, atividade que ganhou importância estratégica tanto na geração de renda quanto no abastecimento alimentar. Ainda assim, persiste um paradoxo que revela as distorções estruturais da produção regional. Mesmo com o avanço da piscicultura amazonense, Manaus ainda depende majoritariamente do pescado vindo de estados como Rondônia e Roraima, responsáveis por abastecer grande parte do mercado consumidor local. Rondônia, atualmente o maior produtor nacional de peixes de cultivo, e Roraima possuem uma vantagem logística e econômica decisiva por também serem grandes produtores de grãos, o que reduz significativamente o custo da ração animal e, consequentemente, da produção aquícola.
No Amazonas, onde a dependência logística é mais onerosa e os insumos chegam com custos elevados, o produtor rural enfrenta uma concorrência desigual dentro da própria Região Norte. Ainda assim, persiste uma contradição evidente: exige-se da Amazônia compromisso absoluto com a preservação ambiental, o que é legítimo e necessário, mas raramente se discute em igual profundidade quais condições econômicas serão oferecidas para que quem vive na floresta consiga permanecer nela de maneira digna, produtiva e sustentável.
Existe, no debate nacional sobre a Amazônia, uma tendência recorrente de tratar desenvolvimento econômico e conservação ambiental como conceitos incompatíveis. Essa simplificação ignora a realidade concreta do interior amazônico. Não existe preservação duradoura em territórios marcados por pobreza, ausência de infraestrutura e abandono estatal. O produtor rural legalizado, integrado à economia formal e dependente diretamente da estabilidade ambiental para manter sua atividade, não é adversário da floresta.
Pelo contrário, em muitas localidades, é justamente a atividade econômica regular que impede o avanço da informalidade, do esvaziamento populacional e da vulnerabilidade social. O problema é que o Brasil ainda insiste em olhar para a Amazônia sem enxergar os amazônidas que sustentam sua economia real. E, muitas vezes, o produtor rural do Amazonas, mesmo atuando dentro da legalidade, acaba sendo tratado com desconfiança e submetido a uma visão preconceituosa que ignora sua importância econômica e social para o estado.
Talvez o maior erro nacional em relação ao Amazonas tenha sido transformar a região em símbolo global antes de compreendê-la como território humano, produtivo e estratégico para o próprio país. É preciso lembrar que a Amazônia não é apenas floresta. Aqui vivem milhões de brasileiros, entre ribeirinhos, agricultores, trabalhadores do interior e povos originários que necessitam de apoio, alimentação, oportunidades e condições mínimas de vida digna. Porque não haverá política ambiental consistente enquanto o interior continuar isolado, sem infraestrutura, crédito adequado e presença efetiva do Estado.
E essa ausência estatal se torna ainda mais grave quando o próprio governo federal falha em cumprir uma de suas funções mais elementares por meio do Incra, órgão historicamente sucateado e incapaz de avançar de maneira eficiente na regularização fundiária da Amazônia. A insegurança jurídica provocada pela ausência de titulação impede acesso ao crédito, afasta investimentos, fragiliza o pequeno agricultor e compromete toda a cadeia produtiva regional.
A falta de regularização fundiária permanece como a origem de grande parte dos entraves econômicos e sociais enfrentados pelo produtor rural amazonense. E não haverá futuro sustentável para a Amazônia enquanto o produtor rural amazonense permanecer marginalizado, invisível dentro do debate brasileiro e continuar sendo tratado com incompreensão por setores que desconhecem profundamente a realidade da região.
O autor é coronel da Polícia Militar, especialista em Política e Estratégia (ADESG) e secretário de Estado Chefe da Casa Militar do Amazonas*.
Foto: imagem gerada por IA.
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