Mortes maternas no Amazonas estão acima da média nacional, diz FVS – amazonas atual

MANAUS – Entre 2018 e março de 2026 foram registradas 555 mortes maternas no Amazonas. Após atingir o pico durante a pandemia da Covid-19, quando ocorreram 124 óbitos em 2021, houve redução nos anos seguintes no estado. Apesar da queda, os registros de mortalidade materna no Estado estão acima da média nacional.
Em 2024, foram registradas 62,3 mortes por 100 mil nascidos vivos, enquanto o índice brasileiro foi de 56,4. Até março deste ano, 16 mortes maternas foram registradas no estado.
Os dados são da FVS (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas) e mostram que o agravamento da crise sanitária teve reflexos diretos nos indicadores de saúde materna. Antes da pandemia, o estado registrava números menores: foram 71 mortes em 2018 e 60 em 2019. Em 2020, primeiro ano da emergência sanitária, o total subiu para 74 óbitos.
Após o pico de 2021, os registros voltaram a cair, chegando a 54 mortes em 2022. Em 2023, houve novo aumento, com 65 óbitos, e depois redução para 42 em 2024, o menor número da série histórica. Em 2025, foram contabilizadas 49 mortes maternas, com razão de mortalidade de 68,1 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos.
Na avaliação da FVS, houve redução importante da mortalidade materna após o período mais crítico da Covid-19. A RMM (Razão de Mortalidade Materna) no estado passou de 156,1 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2021 para 62,3 em 2024 e 68,1 em 2025, considerando que os dados do último ano ainda são tratados como parciais conforme as normativas do Ministério da Saúde.
A SES-AM (Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas) também avalia que houve avanços importantes nos últimos anos. Segundo a pasta, entre 2023 e 2024 a redução dos óbitos maternos chegou a 35%. Apesar da melhora dos indicadores, a FVS informa que a mortalidade materna é um desafio para a saúde pública no Amazonas.
“O indicador ainda reflete desafios históricos da Região Norte. No Amazonas, fatores como grandes distâncias, áreas de difícil acesso, dispersão populacional e a presença de populações rurais, ribeirinhas e indígenas influenciam o acesso oportuno aos serviços de saúde durante a gestação, parto e puerpério. Embora a redução represente um avanço, a mortalidade materna permanece como um desafio para a saúde pública”, informa a fundação ao ATUAL.
A SES afirmou à reportagem que os avanços recentes colocaram o Amazonas em destaque nacional na redução da mortalidade materna e infantil. Ainda assim, ressalta que as características geográficas do estado exigem investimentos permanentes para garantir assistência adequada às gestantes.
A FVS afirma que a mortalidade materna é um dos principais indicadores da qualidade da assistência prestada durante a gestação, o parto e o puerpério. Para a fundação, os números mostram a necessidade de manter ações contínuas de vigilância, monitoramento e investigação dos óbitos para subsidiar políticas públicas de saúde da mulher.
Tanto a SES quanto a FVS concordam que as características geográficas do Amazonas estão entre os principais fatores que dificultam a redução da mortalidade materna.
Com a maior extensão territorial do país, o estado possui municípios com grande dispersão populacional, comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas, além de localidades cujo acesso ocorre exclusivamente por via fluvial ou aérea.
Segundo a SES, essas condições impactam diretamente o acesso ao pré-natal especializado, à realização de exames complementares, ao acompanhamento de gestantes de alto risco e ao atendimento em situações de urgência obstétrica.
“Em algumas regiões, o deslocamento até os serviços de referência pode demandar horas ou até dias de viagem, o que representa um desafio adicional para garantir assistência oportuna e qualificada às gestantes, sobretudo nos casos de alto risco e urgências obstétricas”, informa a secretaria.
Além das dificuldades logísticas, a pasta cita fatores sociais, econômicos e culturais que também podem influenciar os desfechos maternos, como vulnerabilidade social, dificuldades de acesso à informação em saúde e barreiras linguísticas encontradas em algumas comunidades tradicionais e indígenas.
A FVS também chama atenção para os impactos de eventos climáticos extremos sobre a assistência à saúde. Segundo a fundação, cheias e estiagens severas podem dificultar ainda mais o deslocamento de gestantes e o acesso aos serviços especializados em áreas remotas.
Para enfrentar esses desafios, a SES afirma ter fortalecido a organização do fluxo assistencial para gestantes de alto risco e ampliado a integração com a Central de Regulação. Entre as estratégias adotadas está a teleinterconsulta obstétrica, que integra o Projeto Telemonitoramento de Pré-natal de Alto Risco em Áreas Remotas do Amazonas (TelePNAR), desenvolvido em parceria com a Ufam (Universidade Federal do Amazonas).
De acordo com a secretaria, quando uma gestante de alto risco é identificada por meio da teleinterconsulta, ela passa a ser acompanhada e encaminhada para maternidades de referência em Manaus, buscando garantir atendimento especializado e parto seguro.
A SES também cita a oferta de transporte aeromédico prioritário para gestantes de alto risco com o objetivo de reduzir o tempo de acesso aos hospitais de referência.
Ao longo do período analisado, a categoria “demais causas maternas” concentrou o maior número de registros, com 195 mortes. O grupo reúne diferentes complicações relacionadas à gestação, ao parto e ao puerpério que não são detalhadas individualmente nos dados.
Entre as causas específicas, as hemorragias intra e pós-parto aparecem em seguida, com 58 óbitos, seguidas pela eclâmpsia, com 54 registros, e por complicações relacionadas a abortos, responsáveis por 53 mortes.
Nos anos seguintes, a categoria concentrou a maior parcela das mortes, representando 31% dos registros em 2022, 48% em 2023, 40% em 2024 e 31% em 2025.
Para a ginecologista e obstetra Elis Akamy, as principais causas de morte materna observadas no Amazonas refletem um conjunto de fatores que vai além das condições clínicas.
“As causas de morte materna no Amazonas, especialmente as hemorragias e a eclâmpsia, são reflexos de uma rede complexa que envolve barreiras geográficas, infraestrutura hospitalar e protocolos de atendimento. Embora sejam condições tratáveis, a janela de oportunidade para salvar a vida da gestante é extremamente curta”, afirma a médica.
Segundo a especialista, a concentração das maternidades de alta complexidade e dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em Manaus representa um desafio adicional para pacientes do interior.
“Uma hemorragia pós-parto pode levar ao óbito em menos de duas horas. Para uma gestante no interior, o transporte via UTI aérea ou fluvial muitas vezes não ocorre na velocidade necessária”, explica.
A obstetra afirma ainda que as dificuldades de deslocamento também podem comprometer a realização adequada do pré-natal e atrasar a identificação de fatores de risco. “A dificuldade de deslocamento impede que muitas mulheres realizem o número mínimo de consultas, dificultando a identificação precoce de picos hipertensivos que levam à eclâmpsia”.
Segundo a médica, a eclâmpsia representa a forma mais grave da pré-eclâmpsia, caracterizada pela hipertensão durante a gestação. Ela observa que sintomas como dores de cabeça intensas e alterações visuais nem sempre são reconhecidos rapidamente, o que pode retardar o diagnóstico e o tratamento.
Elis Akamy também destaca a importância do sulfato de magnésio, considerado o tratamento padrão para prevenir convulsões associadas à eclâmpsia. De acordo com ela, a administração do medicamento exige treinamento constante das equipes e monitoramento adequado para evitar complicações.
O perfil das vítimas mostra que a maior parte das mortes maternas ocorreu entre mulheres de 20 a 29 anos, faixa etária que concentrou os maiores percentuais em praticamente toda a série histórica. Em 2018, elas representavam 31% dos óbitos. O percentual passou para 37% em 2019, 36% em 2020, 38% em 2021 e chegou a 46% em 2022.
Nos anos mais recentes, a participação desse grupo continuou elevada, alcançando 43% em 2023, 48% em 2024 e 53% em 2025. Ou seja, mais da metade das mortes maternas registradas no último ano ocorreram entre mulheres nessa faixa etária.
As mulheres de 30 a 39 anos aparecem em seguida. Elas responderam por 35% dos óbitos em 2018 e 2019, atingiram 43% em 2020 e 46% em 2021, permanecendo entre 27% e 38% nos anos posteriores.
Entre adolescentes de 15 a 19 anos, os percentuais oscilaram entre 10% e 18% ao longo do período analisado.
O recorte por raça e cor também evidencia diferenças importantes. As mulheres pardas concentraram a maior parte das mortes maternas em todos os anos da série, representando 75% dos casos em 2018, 72% em 2019, 64% em 2020, 65% em 2021, 74% em 2022, 62% em 2023, 69% em 2024 e 61% em 2025.
As mulheres indígenas formaram o segundo grupo mais afetado em diversos anos. A participação delas passou de 8% em 2018 para 18% em 2020, alcançou 25% em 2023, chegou a 26% em 2024 e ficou em 22% em 2025.
As mulheres brancas corresponderam a percentuais menores, variando entre 12% e 18% ao longo da maior parte da série histórica. Em 2025, representaram 16% dos registros.
Segundo a FVS, esse perfil deve ser analisado levando em consideração as características demográficas do estado. “Esse perfil deve ser analisado à luz da composição demográfica do Amazonas, que possui predominância da população autodeclarada parda e abriga a maior população indígena do país. Ao mesmo tempo, esses indicadores ajudam a identificar grupos que demandam atenção permanente das políticas públicas de saúde”, informa a fundação.
A SES observa que fatores como isolamento geográfico, barreiras linguísticas, dificuldades de deslocamento e aspectos culturais podem contribuir para o acesso tardio aos serviços especializados entre mulheres indígenas.
Entre mulheres pardas, a secretaria destaca a maior exposição a vulnerabilidades socioeconômicas que podem influenciar os desfechos maternos.
A redução da mortalidade materna é apontada pela SES-AM como uma das prioridades da política estadual de saúde.
“Entre as principais iniciativas estão a ampliação da estratificação de risco gestacional, o fortalecimento da regulação do acesso aos serviços especializados e a ampliação do acesso ao pré-natal de alto risco, garantindo que as gestantes que necessitam de acompanhamento especializado sejam atendidas com maior agilidade, mesmo estando em regiões mais distantes”, informa a secretaria.
A pasta também tem investido na capacitação de profissionais que atuam na assistência materna e neonatal, especialmente em ações relacionadas ao acolhimento e à classificação de risco obstétrico nas maternidades.
Outra frente destacada pela SES-AM é o fortalecimento dos Comitês de Prevenção do Óbito Materno, Fetal e Infantil, além da realização de análises de causa raiz dos óbitos para identificar falhas assistenciais e aprimorar os fluxos de atendimento.
A secretaria também informou que desenvolve ações por meio do PlanificaSUS, em parceria com o Hospital Albert Einstein, buscando fortalecer a integração entre a atenção primária e os serviços especializados.
Entre as medidas voltadas à prevenção, a pasta cita ainda o apoio aos municípios para ampliar o acesso ao planejamento reprodutivo, incluindo a capacitação de profissionais para oferta de métodos contraceptivos de longa duração, como DIU e implantes subdérmicos.
Para a obstetra Elis Akamy, a ampliação da assistência especializada fora da capital continua sendo um dos caminhos para reduzir os indicadores.
“A redução desses índices passa obrigatoriamente pela implementação da Rede Cegonha e pela regionalização efetiva da saúde, garantindo que o kit de emergência obstétrica esteja disponível em cada unidade básica de saúde do interior”, afirma.
A FVS-AM destaca que a redução da mortalidade materna depende de ações contínuas de vigilância epidemiológica, monitoramento dos indicadores, investigação oportuna dos óbitos e identificação de territórios mais vulneráveis. Segundo a fundação, essas informações são fundamentais para orientar o planejamento e fortalecer as ações voltadas à saúde materna em todo o Amazonas.

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