O Amazonas orgulha-se de conservar cerca de 95% de sua cobertura florestal original. É um patrimônio inestimável para o Brasil e para o mundo. Entretanto, esse ativo não beneficie economicamente a população.
(Foto: Agência Brasil)
Celebrado em 5 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente convida governos, instituições e cidadãos a refletirem sobre a relação entre desenvolvimento humano e preservação da natureza. Na Amazônia isso assume uma dimensão ainda mais profunda. Afinal, tudo por aqui é superlativo. Imensa floresta tropical, fantástica biodiversidade, reservas abundantes de água doce e outros ativos naturais, enfim, que redundam em serviços ambientais capazes de auxiliar no equilíbrio climático global.
Paradoxalmente, porém, muitas das cidades amazônicas ainda não conseguiram transformar essa riqueza natural em qualidade de vida para seus habitantes. Nenhuma delas se encontra, sequer, entre as cem mais sustentáveis do planeta. Manaus, capital do Amazonas, talvez seja o exemplo mais emblemático dessa contradição.
Situada no coração da Amazônia, a cidade enfrenta problemas que se repetem em diversos centros urbanos brasileiros, mas que, pelas circunstâncias por aqui favoráveis, são inadmissíveis: crescimento desordenado, mobilidade precária, perda de áreas verdes, degradação de igarapés, poluição e dificuldades históricas no saneamento básico, calor insuportável… O resultado é um modelo urbano desconectado da realidade ambiental que o cerca e a queda progressiva na qualidade de vida de seus habitantes.
O Amazonas orgulha-se de conservar cerca de 95% de sua cobertura florestal original. É um patrimônio inestimável para o Brasil e para o mundo. Entretanto, esse ativo não beneficie economicamente a população. Não basta possuir uma floresta exuberante ao redor se, dentro das cidades, rios são poluídos, árvores desaparecem, espécies são extintas.
O futuro da Amazônia passa necessariamente pela construção de cidades sustentáveis. Isso significa investir em planejamento urbano, transporte coletivo eficiente, recuperação de áreas degradadas, arborização, energias renováveis, gestão adequada dos resíduos sólidos e proteção dos recursos hídricos. Significa também promover educação ambiental permanente, para que cada pessoa compreenda o seu papel na conservação do patrimônio natural.
Manaus já demonstrou, em outros momentos de sua história, capacidade de reinvenção. Durante o ciclo da borracha, tornou-se referência de modernidade na região. Hoje, diante dos desafios ambientais e climáticos do século XXI, a cidade tem novamente a oportunidade de liderar uma transformação histórica, desta vez baseada nos princípios da sustentabilidade. E com muito mais vantagem em relação a outros países do mundo, os quais praticamente exauriram as suas reservas naturais, porquanto podemos evitar o que eles fizeram de errado e aproveitar o que fizeram de bom.
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, mais do que celebrar, é preciso assumir o compromisso de construir uma nova relação entre cidade e natureza. O verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pelo crescimento econômico, mas pela capacidade de garantir bem-estar às pessoas sem comprometer os recursos que sustentarão as futuras gerações.
O que é preciso fazer, então, com urgência? Refundar nossas cidades com base em parâmetros diferentes daqueles em que elas se assentaram especialmente no século passado, quando foram lançadas às favas, pelos mais variados motivos, o planejamento urbano; o cuidado com os recursos naturais, águas e florestas; com o patrimônio cultural e arquitetônico; com a pesquisa e a utilização de energias renováveis; com o saneamento básico; com esgoto; com o descarte adequado de resíduos; com a educação, pois um povo educado tem maior discernimento, dentre tantas outras coisas indispensáveis ao bem-estar coletivo, esquecendo todos daquela máxima sagrada da ciência econômica, segunda a qual os recursos são escassos e as necessidades humanas são ilimitadas.
Manaus e o Amazonas possuem todas as condições para se tornarem exemplos mundiais dessa nova visão. Façamos por onde. Já passa perigosamente da hora.
* Júlio Antonio Lopes é advogado e jornalista











Deixe o Seu Comentário