» Homicídios de indígenas dobram no Amazonas, diz Atlas 2026 – Amazônia Real

Manaus (AM) – Uma violência que não cessa expõe o cenário letal contra os indígenas da região Norte do Brasil. Os dados foram analisados no Atlas da Violência 2026, divulgado de forma híbrida nesta terça-feira (26), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O estudo aponta que o Estado do Amazonas lidera a estatística, saltando de 36 homicídios, em 2023, para 73 em 2024, duplicando o número de indígenas mortos em apenas um ano. 
Segundo o Atlas, o aumento dos casos foi de 102,8% na taxa de letalidade da violência contra indígenas, o que coloca o Amazonas entre os epicentros da violência contra povos originários no país.  
A taxa de homicídios de indígenas no estado subiu de 21,4 para 47,8 homicídios por 100 mil pessoas, uma variação de 123,4%, que sinaliza para o agravamento da violência contra essas populações. 
O Amazonas, segundo o Censo Demográfico do IBGE, é o estado que possui a maior população indígena do Brasil, com 490.935 pessoas autodeclaradas indígenas. Esse número representa quase um terço (aproximadamente 29%) de toda a população indígena do país. 
A região Norte, que compreende também os estados do Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Pará – que estão dentro do bioma Amazônia -, concentra alguns dos cenários mais críticos do país em relação à proteção dos povos, marcados pelo avanço do crime organizado, conflitos territoriais e disputas socioambientais em territórios tradicionais.
Em Roraima, a situação não é menos alarmante. O estado registrou taxa de 172,9 homicídios por 100 mil indígenas em 2024, uma das mais altas do Brasil, mesmo após queda em relação ao pico de 246,4 registrado em 2023. O estado registrou 60 homicídios de pessoas indígenas em 2024.
O Acre registrou aumento de 50% na taxa de homicídios contra pessoas indígena, saindo de 3 casos em 2023 para 6 casos em 2024.
Já o Pará aparece como um contraponto na série histórica: a taxa de homicídios de pessoas indígenas caiu de 71,9 em 2014 para 9,0 em 2024, indicando uma redução significativa ao longo da década. Também se observou queda em números absolutos de homicídios. De 11 casos em 2014, caiu para 5 em 2024, com flutuações intermediárias relevantes, como o aumento para 14 casos em 2020. De acordo com os pesquisadores, esse comportamento sugere que, apesar da tendência de redução, a dinâmica local permaneceu instável e sensível a variações conjunturais.
“Esses estados concentram padrões crônicos de violência contra indígenas, cada um com uma dinâmica específica. Garimpo em Roraima e escalada recente da violência no Amazonas. A interdisciplinaridade exige respostas também diferenciadas”, destacou o antropólogo Frederico Augusto Barbosa da Silva, um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo.
A presença de facções criminosas foi detectada na exploração ilegal de ouro em Roraima, em 2021, o que elevou o conflito na Terra Indígena Yanomami, em 2021, como noticiou à agência Amazônia Real. Leia aqui.
Em 18 de maio, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), assinaram um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) para prevenção e o enfrentamento ao crime organizado e às economias ilícitas que afetam os territórios indígenas, combatendo a sobreposição entre o tráfico de drogas e crimes ambientais. 
A ação faz parte do programa “Território Seguro, Amazônia Soberana”, que contará com um aporte inicial de R$ 209 milhões. O foco inicial são sete regiões prioritárias distribuídas em 42 municípios de seis estados, entre eles, Acre, Amazonas, Pará, Maranhão e  Mato Grosso. 
Na ocasião, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, destacou a responsabilidade do Estado e a importância ambiental dos territórios tradicionais. “Terra indígena é bem público federal da União, portanto, pertence ao Estado brasileiro, e nós temos o dever de proteger esses territórios.”

De acordo com o antropólogo Frederico Augusto Barbosa da Silva, a queda da violência letal contra pessoas indígenas no período entre 2014 e 2024 foi evidente, mas a desigualdade persiste.  Em todo o Brasil, a taxa registrada de homicídios entre indígenas foi de 24,6 por 100 mil habitantes em 2024, um valor 22% superior à taxa nacional de 20,1.  
Em 2014, a taxa entre indígenas era de 61,9 por 100 mil. Depois desse período, há um movimento contínuo de redução, especialmente a partir de 2017, após um recrudescimento anterior. Mas, a partir de 2023, o pesquisador explica que os indicadores voltam a piorar.
“Isso tem uma razão e uma memória histórica. Existe um legado de políticas de desconstrução de direitos indígenas e de enfraquecimento dos aparatos de proteção aos povos indígenas. Essa intencionalidade ainda carrega uma memória de violência que atravessa especialmente o período entre 2022 e 2023 em diante”, explicou.
O estudo se baseia em compreender a violência letal contra indígenas em contextos de conflitos territoriais, principalmente dentro de Terras Indígenas (TI), sem dados correspondentes a violência contra indígenas em contexto urbanos. As causas de cada conflito são próprias e específicas, levando em conta as peculiaridades de cada território. “Estamos falando de conflitos fundiários, garimpo ilegal e diferentes tipos de pressão territorial, dinâmicas que muitas vezes independem dos contextos urbanos”, disse o pesquisador.
“Ainda há muito a ser feito em termos de atuação estratégica sobre os territórios indígenas, mesmo com todos os esforços ainda vemos a situação letal contra os indígenas maior do que contra a população em geral”, analisou o pesquisador e antropólogo Frederico Augusto Barbosa da Silva, durante coletivo de imprensa para apresentação dos resultados do estudo.

O Atlas da Violência 2026 marca uma década da parceria entre o Ipea e o FBSP no monitoramento da letalidade das violências no Brasil. O estudo foi elaborado a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde (MS).   
O estudo aponta que a atual dinâmica da violência no Brasil está diretamente ligada à expansão territorial das facções criminosas para cidades do interior do país. Nesse contexto, organizações criminosas passaram a atuar em mercados ligados ao ouro, combustíveis, crimes ambientais e outras economias ilegais na região amazônica.
Os pesquisadores relacionam o avanço da violência à fragilidade estatal em áreas de fronteira, à disputa por territórios indígenas e ao crescimento de conflitos socioambientais na região. 
“O território bem protegido, com uma boa gestão ambiental, com uma boa gestão equipamento público e autonomia dos povos indígenas, nessas situações o risco é menor. Embora as pressões internas sempre acabem tensionando as condições de vida e as possibilidade de contenção de homicídios e violências contra esses povos. O papel do Estado é fundamental”, explicou Frederico Augusto Barbosa da Silva.
A chamada “interiorização do crime” já tem consequências negativas no cenário de violência de pequenas cidades. No ranking de homicídios por cidade no Amazonas, o município de Barcelos aparece em primeiro lugar. Em 2024, o município registrou 32 casos de homicídio. Com uma população de 18.626 habitantes, a cidade alcançou uma taxa alarmante de 171,8 homicídios por 100 mil habitantes, uma das mais altas do estado. 

Na série histórica analisada no Altas, as mortes autoprovocadas de pessoas indígenas revelam “uma forma de violência individual, enraizada em processos sociais, históricos e territoriais que estruturam as condições de vida dos povos indígenas”. Entre 2014 e 2024, as taxas de suicídio entre indígenas permaneceram muito superiores às da população brasileira, indicando maior incidência e exposição diferenciada a fatores de risco socialmente produzidos, segundo o estudo.
Em 2014, a taxa de suicídio entre indígenas era de 38,5 por 100 mil habitante, mais de sete vezes superior à taxa nacional da época (5,1). Entre 2014 e 2019, verificou-se uma tendência de queda nas taxas, que diminuíram para 17,6 casos, representando redução de 54,3%. No entanto, a partir de 2020, se registrou nova elevação, com a taxa de suicídios atingindo 24,3 em 2021, no auge da pandemia do Covid-19.  
Proporcionalmente, os povos indígenas continuam registrando um número muito maior de suicídios do que a população brasileira em geral. Em 2024, a taxa foi de 20,9 por 100 mil indígenas, permanecendo muito acima da média nacional, que é de 7,8 por 100 mil habitantes.
O suicídio indígena no Brasil tem maior intensidade na região Norte, onde se concentraram, de maneira recorrente ao longo da série histórica, tanto os maiores números absolutos de casos quanto as maiores taxas.
No Amazonas, foram registrados 83 casos de suicídios indígenas em 2024, o maior número da série histórica, o que representou aumento de 9,2% em relação a 2023. 
Em Roraima, houve 26 casos no mesmo período, um aumento de 36,8% em relação ao ano anterior (19 casos). No Tocantins, o aumento dos casos também chama atenção. Em 2024, foram registrados oito casos, um crescimento de 166,7% se comparado a 2023, quando três suicídios haviam sido notificados entre povos indígenas no estado. 
Conflitos territoriais históricos e a pressão sobre modos de vida tradicionais, comuns na região amazônica e frequentemente ligados a confinamento territorial, além da intensificação de disputas fundiárias e precariedade nas condições de reprodução social, atuam como fatores que amplificam o sofrimento psicossocial. 
“Em geral, a gente imagina que os laços de solidariedade, a vida comunitária bem organizada, garantem uma segurança existencial para os povos indígenas. Quando há desagregação desses recursos e a vida comunitária passa a ser tensionada por violências externas, existe também uma tendência de desagregação dos sentidos existenciais relacionados à própria vida comunitária e à relação com a natureza. Nesse contexto, a gente vê também um aumento dos suicídios em sociedades indígenas”, disse Frederico Augusto.

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“Esses estados concentram padrões crônicos de violência contra indígenas, cada um com uma dinâmica específica. Garimpo em Roraima e escalada recente da violência no Amazonas. A interdisciplinaridade exige respostas também diferenciadas”, destacou o antropólogo Frederico Augusto Barbosa da Silva, um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo do Ipea e FBSP.
LINKS
 
https://amazoniareal.com.br/garimpeiros-ligados-ao-pcc-atacam-aldeia-yanomami/
 
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/05/atlas-violencia-2026-relatorio-completo.pdf

https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/assuntos/noticias/2026/05/mpi-mjsp-e-funai-assinam-acordo-para-enfrentamento-do-crime-organizado-que-impacta-territorios-indigenas

É jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e fotógrafa independente na cidade de Manaus. Como repórter, escreve sobre violações de direitos humanos, conflitos no campo, povos indígenas, populações quilombolas, racismo ambiental, cultura, arte e direitos das mulheres, dos negros e da população LGBTQIAPN+ do Norte. Em seu trabalho fotográfico, utiliza suportes analógicos, digitais e experimentais para registrar cenas da Amazônia urbana e de manifestações artísticas de rua marginalizadas, como a pixação e o graffiti. Desde 2018, participa de exposições de arte independentes e coletivas em Manaus. Já expôs trabalhos fotográficos no 10º Festival de Fotografia de Tiradentes (Tiradentes/MG, 2020) e na Galeria do Largo – Espaço Mediações (Manaus/AM, 2020). Recebeu o 1º Prêmio Neusa Maria de Jornalismo (2020), o Prêmio Sebrae de Jornalismo – AM na categoria Texto (2024) e o Prêmio Megafone de Ativismo na categoria Reportagem de Mídia Independente (2025). De 2020 a 2022, participou do projeto de Treinamento no Jornalismo Independente e Investigativo da Amazônia Real.
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