Fiesp ataca Reforma Tributária com preconceito e crueldade – Metrópoles


Metropóles
atualizado

A ação movida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contra os mecanismos da Reforma Tributária que preservam a competitividade da Zona Franca de Manaus (ZFM) precisa ser chamada pelo nome que carrega.
Não se trata apenas de divergência tributária.
Trata-se de uma reação política contra qualquer tentativa de desconcentrar poder econômico no Brasil.
“Mais do que uma disputa jurídica ou tributária, o que está em jogo é o tipo de país que se pretende construir: um Brasil concentrado, em que os mais fortes acumulam ainda mais vantagens, ou uma nação capaz de usar sua política fiscal para estimular o desenvolvimento regional e reduzir desigualdades históricas. Atacar a ZFM, nesse contexto, é atacar não apenas um modelo de incentivo que permaneceu na Reforma Tributária, mas a própria ideia de um país mais equilibrado e menos desigual.”
O discurso apresentado fala em “neutralidade”, “equilíbrio concorrencial” e “ruptura federativa”. Mas, o que emerge por trás da linguagem técnica é algo mais antigo e mais profundo: a resistência histórica das regiões mais ricas do país em aceitar que outras partes do Brasil tenham direito real ao desenvolvimento.
A lógica da concentração raramente se apresenta como concentração.
Ela costuma se apresentar como racionalidade econômica.
Mas, na prática, quase sempre dialoga com ambição desmedida, preservação de hegemonia e manutenção de privilégios históricos.
O que está em curso é uma tentativa de impedir que a Amazônia mantenha um instrumento mínimo de competitividade justamente no momento em que a Reforma Tributária fortalece ainda mais os grandes centros consumidores nacionais.
“O Constituinte de 1988 entendeu que a manutenção da ZFM como área de incentivos fiscais é o instrumento adequado para atuar positivamente em direção à busca da redução das desigualdades regionais que é um dos objetivos permanentes da República, consagrado no artigo 3o, III da CF/88.”
É importante dizer isso com clareza.
A nova lógica tributária da cobrança no destino já favorece estruturalmente estados que concentram mercado, infraestrutura, logística, crédito, universidades, fornecedores e densidade industrial. Ou seja, regiões que já largaram décadas à frente do restante do país.
Ainda assim, a preservação constitucional da Zona Franca parece incomodar.
E aqui surge a contradição central.
Durante anos, o Brasil conviveu com uma ampla guerra fiscal. Incentivos foram concedidos por diversos estados à margem do Confaz. O ambiente foi tão disseminado que a própria União precisou editar a Lei Complementar 160/2017 para convalidar benefícios considerados ilegais e evitar uma crise institucional e econômica de grandes proporções.
Na prática, o país inteiro reconheceu que houve competição tributária desordenada durante décadas.
Mas, agora, justamente quando a Reforma Tributária tenta reorganizar o sistema preservando uma política regional prevista na Constituição, a reação aparece travestida de defesa da concorrência.
“A Zona Franca de Manaus tem relevante papel de promover a redução das desigualdades regionais e sociais, bem como colaborar com a preservação ambiental e da soberania nacional, auxiliando na defesa do território brasileiro, pela ocupação física de área da nossa geografia cujas riquezas e importância são reconhecidas internacionalmente.”
Mais curioso ainda é que os próprios estados brasileiros participaram da construção do consenso federativo que sustentou a Emenda Constitucional 132 e as leis complementares posteriores.
Houve entendimento formal no âmbito do Comsefaz reconhecendo a necessidade de preservação da competitividade da Zona Franca de Manaus.
Ou seja, a judicialização atual não nasce da ausência de debate. Nasce da inconformidade com o resultado democrático do debate.
Os números desmontam qualquer narrativa alarmista.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria, São Paulo concentra quase 30% da indústria brasileira. O Amazonas representa cerca de 2,3%.
Em estabelecimentos industriais, o Amazonas possui apenas 0,6% do total nacional.
Ainda assim, parte do setor econômico do estado mais rico do país resolveu tratar a existência de um polo industrial amazônico como ameaça competitiva.
Isso revela mais sobre o imaginário do poder econômico brasileiro do que sobre a realidade industrial do Amazonas.

Afinal, qual é exatamente o temor?
Que uma região isolada logisticamente, distante dos grandes centros consumidores e cercada por enormes limitações estruturais consiga preservar algum nível de atividade industrial?
O que parece incomodar não é o tamanho da Zona Franca.
É sua existência.
Porque ela desafia uma lógica histórica segundo a qual riqueza, infraestrutura e oportunidade devem permanecer concentradas nos mesmos espaços geográficos de sempre.
A Amazônia interessa ao Brasil como ativo climático, reserva mineral, patrimônio ambiental e vitrine geopolítica. Mas, parte do país ainda demonstra desconforto quando a região reivindica instrumentos econômicos capazes de sustentar sua própria integração produtiva.
Quer-se a floresta preservada. Mas sem autonomia econômica amazônica.
Quer-se estabilidade climática. Mas sem repartição mais equilibrada das oportunidades nacionais.
Quer-se soberania territorial. Mas sem presença robusta de desenvolvimento formal na região.
A indústria de Manaus ajudou o Brasil a preservar uma das maiores áreas florestais contínuas do planeta enquanto gerava emprego, arrecadação, tecnologia e presença econômica legal numa região historicamente vulnerável à ocupação predatória.
Fragilizar esse modelo não fortalece o Brasil.
Fortalece apenas a velha dinâmica nacional de concentração.
E talvez seja exatamente isso que essa disputa revela com maior nitidez.
Há setores que aceitam discutir desigualdade regional desde que ela jamais deixe de existir.

Todos os direitos reservados
Quais assuntos você deseja receber?
Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:
1.
Mais opções no Google Chrome
2.
Configurações
3.
Configurações do site
4.
Notificações
5.
Os sites podem pedir para enviar notificações

source

Deixe o Seu Comentário

Compartilhe:

WhatsApp
Facebook
Telegram
Twitter
Email
Print
VEJA TAMBÉM
error: Content is protected !!