Participantes acompanharam oficinas, plantios coletivos e experiências culinárias com ingredientes da biodiversidade amazônica
(Foto: Divulgação)
A 6ª edição da Festa da Floresta – Justiça Climática e Cultura Alimentar reuniu agricultores, educadores, artistas e moradores da região do Puraquequara, em Manaus, para uma programação voltada à agroecologia, gastronomia amazônica e valorização dos saberes tradicionais. Realizado na Escola na Floresta Tera Kuno, o evento contou com oficinas, apresentações culturais, plantio coletivo e atividades ligadas à cultura alimentar da Amazônia.
Durante os dois dias de programação, participantes tiveram contato com práticas agroecológicas, debates sobre sustentabilidade e experiências gastronômicas elaboradas com ingredientes da biodiversidade amazônica, incluindo espécies alimentícias não convencionais (PANCs). A iniciativa também reuniu pesquisadores, agricultores familiares e artistas em atividades voltadas à preservação dos conhecimentos tradicionais e à promoção da cultura alimentar regional.
(Foto: Divulgação)
Entre o plantio coletivo, a preparação dos alimentos, as rodas de música e as apresentações artísticas, uma mensagem ecoou com força pelas vozes das crianças: -“Se o campo não planta, a cidade não janta!” A agricultura apareceu não apenas como produção de alimentos, mas como cultura viva. Plantar, colher, cozinhar, cantar, dançar e contar histórias fizeram parte de um mesmo movimento. Lembrando a todos de que a comida nasce das relações de cuidado entre pessoas, floresta, água e solo. Entre plantios e rodas, a agricultura apareceu como cultura viva.
A jornada começou ainda em Manaus, com um passeio fluvial até a Escola Tera Kuno, na região do Puraquequara na APA Adolpho Ducke, área que ainda preserva características marcantes da floresta amazônica e oferece um contraponto ao ritmo acelerado da vida urbana.
A culinária foi um espetáculo à parte, resgatando a ancestralidade e a inovação com ingredientes locais. Peixe moqueado, caldo de milho com PANC, pamonha, nhoque de macaxeira, ariá, pão de pupunha, bolo de ora-pro-nóbis, vatapá de mamão verde, guisado de coração de banana — tudo preparado a partir da biodiversidade local, os PANC. À noite, a cozinha se tornou um espaço de comunhão. Mas a grande estrela do jantar foi o ariá — uma batata ancestral da Amazônia —, que brilhou em diversas preparações, resgatando sabores esquecidos da região.
“A cozinha virou encontro. Todo mundo ajudando, descascando, cortando, cozinhando junto.” relata Nora Hauswirth, Curadora do evento.
O teatro e a música atravessaram os dois dias. “Estar em Tera Kuno é celebrar a terra e a comida que ela nos dá”, disse o ator Dimas Mendonça. A artista indígena Acácia Mié afirmou: “A floresta fala. A oralidade carrega nossa memória.”
O grupo Jiquitaia Coco de Roda, Leandro Ribeiro e o Arraial de Manaós trouxeram música e ritmo para dentro da floresta. “Plantar, colher, dançar e cantar — tudo junto”, resumiu uma das musicistas.
“A floresta não é só onde a gente pisa. É alimento, memória e cuidado”, relata a Majé Beth, que teve uma fala forte de memória marcada pela mudança alimentar ao chegar na cidade.
Botânico e Pesquisador Valdely Kinupp apresentou mais de 50 variedades de PANC da biodiversidade amazônica e seus usos. Na oficina culinária, participaram também os agricultores da ASPROB, que desenvolve processos de transição agroecológica com projeto da Sisteminha sobre orientação técnica do Instituto Tera Kuno. A presidente da associação, Sílvia Serra, destacou: “Foi inspirador. A gente descobriu um tesouro que já existe aqui no nosso território.
(Fito: Divulgação)
A Festa da Floresta provou que a transição para um mundo mais sustentável passa, necessariamente, pelo prato, pela alegria e pelo convívio. É na partilha do alimento e no respeito aos ciclos da natureza que encontramos as respostas para os desafios do nosso tempo.
Na Tera Kuno, seguimos cultivando sementes, alimentos, amizades, aprendizagens e sonhos coletivos. Porque celebrar também é uma forma de plantar.
Com curadoria e produção de Nora Hauswirth e Alexandre Vitor, a Festa da Floresta é realizada pelo Instituto de Pesquisa e Divulgação Agroecológicas Tera Kuno, por meio do programa Arte & Escola na Floresta. O projeto foi contemplado pelo Edital de Fomento Cultural Multilinguagens (Nº 09/2025) do Fundo Estadual de Cultura, recebendo o apoio do Governo do Amazonas (por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa) e do Ministério da Cultura do Governo Federal, através da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Atuando na intersecção entre agroecologia, arte, educação e cultura alimentar, o instituto Tera Kuno desenvolve sistemas agroflorestais e pesquisas na APA Adolpho Ducke. Entre suas principais frentes de ação estão o Centro de Treinamento Agroflorestal (CTA), o programa Arte & Escola na Floresta e a distribuição de alimentos orgânicos por meio da Cesta Ajuri.












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