Receio de cair costuma estar associado a experiências prévias e pode comprometer qualidade de vida
Calçadas quebradas e sem acessibilidade são fáceis de encontrar (Foto: Daniel Brandão)
Sair de casa para atividades simples, como ir ao mercado, à feira ou participar de atividades de convivência, exige atenção redobrada para muitos idosos em Manaus. Calçadas quebradas, obstruídas e sem acessibilidade são fáceis de encontrar pela cidade e ajudam a explicar por que 43% dos brasileiros com mais de 50 anos têm medo de cair na rua por causa de defeitos no calçamento.
Esse dado foi apontado pelo Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil), coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e divulgado no final de maio deste ano. A pesquisa nacional reflete também a rotina vivida por idosos que precisam caminhar pela capital amazonense.
Moradora do bairro São Jorge, na zona Oeste de Manaus, a aposentada Maria Lúcia Loureiro, de 75 anos, afirma que encontra diversos problemas ao circular pelas ruas da cidade. Segundo ela, além das calçadas danificadas, as dificuldades aumentam ainda mais quando encontra locais com mato alto, lixo acumulado e buracos nas vias.
“As calçadas quebradas, cheias de mato e lama, além do lixo que o próprio povo joga nas ruas, dificultam muito a nossa locomoção. Também tem ruas sem calçadas e muitos buracos. Falta mais fiscalização”, afirmou a idosa.
Maria Lúcia conta que há um cruzamento próximo de sua casa com problemas antigos na infraestrutura, situação que, segundo ela, já foi comunicada aos órgãos responsáveis e que, até o momento, não teve solução.
Outro relato semelhante vem do aposentado Lauro Borges Monteiro, de 74 anos, morador do bairro Compensa, na zona Oeste. Ele afirma que o receio de sofrer uma queda está presente sempre que precisa sair de casa.
“Presto muita atenção quando saio de casa porque já sou idoso e não quero correr riscos. A gente vê muitas pessoas levando tombos e quase sendo atingidas pelos carros”, disse.
Lauro explica que os obstáculos encontrados nas calçadas frequentemente obrigam os pedestres a caminhar pela rua, dividindo espaço com os veículos. Segundo ele, a preocupação é constante, seja para ir a um local mais longe de casa ou até para comprar um pão na padaria perto de casa.
“As calçadas daqui são péssimas. Tem carro estacionado, buraco, pedaço de cimento e outros obstáculos. Eu moro só com a minha esposa, que é cadeirante, e não consigo passear com ela porque teríamos que disputar espaço com os carros na rua”, relatou.
Segundo a fonoaudióloga Grace Benfica, professora da oficina de Equilíbrio Corporal da Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade (Funati), o medo de cair costuma estar associado a experiências anteriores e pode comprometer significativamente a qualidade de vida dos idosos.
Ela explica que quedas podem causar lesões graves, como fraturas de fêmur, cuja recuperação tende a ser mais lenta na terceira idade devido à fragilidade óssea natural do envelhecimento.
“O idoso já não possui o mesmo equilíbrio natural. A marcha fica mais lenta, a força muscular diminui, a visão apresenta dificuldades e os reflexos muitas vezes já não são os mesmos. Tudo isso favorece a ocorrência de quedas. Além disso, o medo pode levar ao isolamento social, à perda de autonomia e até à dependência de outras pessoas para atividades do dia a dia”, afirmou.
Falta de manutenção é outro problema apontado por pedestres de Manaus (Foto: Daniel Brandão)
Como forma de prevenção, Grace recomenda a prática regular de atividades físicas voltadas ao fortalecimento muscular, à mobilidade e ao equilíbrio.
“Exercícios físicos, com toda a certeza. Ficar parado, sem movimentar-se, jamais! Porque atrofia o corpo e a mente. Aqui na Funati são oferecidas várias atividades, como o Equilíbrio Corporal, Fisioterapia Preventiva, Mobilidade Funcional, Pilates, Tai Chi Chuan, Caminhada, Dança e muito mais”, recomendou.
A reportagem de A CRÍTICA entrou em contato com a Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), para solicitar um posicionamento sobre as condições das calçadas da capital e as ações voltadas à acessibilidade e à segurança dos pedestres. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno.
Em 2020, um estudo realizado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), com idosos da área urbana e de comunidades ribeirinhas de Coari, no interior do Amazonas, também identificou que 44,2% dos participantes apresentavam alta preocupação com quedas.
A pesquisa apontou ainda que mulheres, moradores de comunidades ribeirinhas, idosos com pior percepção da própria saúde e aqueles com menor controle postural apresentavam maior propensão ao medo de cair.
Segundo a pesquisa, a preocupação com quedas pode desencadear um ciclo de inatividade física, perda da capacidade funcional, redução da confiança para caminhar e aumento do próprio risco de acidentes.
Na legislação brasileira, a calçada é considerada um bem público municipal de uso comum, mas a responsabilidade pela sua construção, conservação e manutenção é, via de regra, do proprietário do imóvel em frente à calçada.
A Lei Brasileira de Inclusão / Estatuto da PCD determina que as calçadas devem garantir acessibilidade universal. Ela obriga o cumprimento de normas técnicas de engenharia, exigindo o piso tátil para deficientes visuais e rampas de acesso nas esquinas.












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