No ano passado, o município registrou 38 conflitos no campo, número quase quatro vezes maior do que o segundo colocado, Lábrea, que teve 10
O Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2025, foi lançado nesta terça-feira (9) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Amazonas. (Foto: Paulo Bindá/A CRÍTICA)
Boca do Acre, no Sul do Amazonas, foi o município campeão do estado em conflitos no campo em 2025, contabilizando 38 conflitos no ano passado. Os dados chamam atenção porque são quase quatro vezes mais ocorrências do que o segundo colocado, Lábrea, que registrou 10 ocorrências. As informações constam do Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2025, cujo lançamento com foco nos dados do Amazonas aconteceu nesta terça-feira (9), realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Amazonas.
No total, foram registradas 98 ocorrências de conflito no campo no Amazonas em 2025. O ranking é dominado por cidades do sul do estado e da região do Alto Solimões. Depois de Boca do Acre e Lábrea, aparecem Benjamin Constant, Manaus e São Paulo de Olivença, todos com cinco ocorrências.
O levantamento ainda aponta Borba e Jutaí com quatro casos cada, além de um grupo de municípios com três registros, entre eles Atalaia do Norte, Fonte Boa, Manicoré e Novo Aripuanã.
(Foto: Paulo Bindá/A CRÍTICA)
A concentração dos casos no sul do Amazonas chama atenção porque coincide com áreas próximas ao chamado arco do desmatamento e à região da Amacro, região formada por municípios do Acre, Amazonas, Rondônia e oeste do Pará. Amacro é o acrônimo que designa a região localizada na tríplice divisa entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia.
Trata-se de uma regionalização econômica, correspondente a 32 municípios, que foi estruturada com o objetivo de fomentar o agronegócio e a expansão agropecuária na Amazônia. O Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2025 descreve a área como uma das mais violentas da Amazônia atualmente, marcada por disputas por terra, floresta e recursos naturais.
Especialistas e pesquisadores costumam apontar que o avanço da fronteira agrícola sobre áreas protegidas aumenta o risco de conflitos armados, expulsões e assassinatos no campo. No caso da Amacro, o Caderno de Conflitos no Campo destaca que a combinação de “terra, dinheiro e Estado fraco” ajuda a explicar por que a região se tornou um epicentro da violência agrária na Amazônia.
O relatório também relaciona a violência à expansão do agronegócio, à grilagem de terras, ao garimpo ilegal e à presença crescente do crime organizado em regiões de floresta e fronteira. Entre as causas citadas estão a fragilidade da fiscalização estatal, a lentidão na regularização fundiária e a pressão econômica sobre territórios indígenas, assentamentos e áreas públicas.
Outro dado relevante é a presença de registros de trabalho escravo em municípios amazonenses. O documento cita ocorrências em Borba e Maués, ambos com um caso identificado.
O lançamento do Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2025 contou com a presença do Cardeal da Amazônia, Leonardo Steiner, que classifica o evento como um testemunho de que a igreja quer a paz no campo.
“A intenção de fazer este lançamento aqui em Manaus é visibilizar os conflitos que existem, visibilizar os conflitos, as mortes que aconteceram, para que devagar possamos levar paz ao campo. Existem muitos interesses, e esses interesses acabam trazendo cada vez mais violência. E é um testemunho nosso de igreja de que nós queremos a paz no campo”, disse o Cardeal.
Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus e Cardeal da Amazônia
Dom Leonardo Steiner também demonstrou ter consciência da importância do levantamento para a história da Amazônia. “Esse trabalho será um documento, um testemunho belíssimo para o futuro, ver o quanto esforço teve a CPT para levar paz ao campo. Não se trata apenas de denúncia, se trata também de intermediar conflitos e assim podemos levar a ter mais harmonia na sociedade brasileira também no campo”, declarou.
Presente no lançamento do Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2025 em Manaus, Maria Petronila Neto, integrante da da coordenação nacional da CPT, explica que o desmatamento é o primeiro ciclo de um projeto maior de expansão que inclui o sul do Amazonas.
“O sul do Amazonas está dentro de uma abrangência geográfica, que faz parte de um grande projeto de expansão do agronegócio, da fronteira agrícola, trazendo desmatamento, que a gente diz que é o primeiro ciclo desse grande projeto da expansão, o segundo é a pecuária, depois soja, enfim, finalizando pela exploração mineral”, explica Maria Petronila.
Maria Petrolina Neto, integrante da coordenação nacional da CPT
Ela pondera ainda que municípios como Canutama. Lábrea e Boca do Acre contam com equipes da Comissão Pastoral da Terra, o que facilita a notificação dos conflitos. “ Outros municípios que não têm equipe, não têm a mesma facilidade de notificação. Então, obviamente, o Amazonas é um estado que, para nós, tem uma subnotificação desses registros, por ser uma equipe pequena e ser um estado imenso”, diz.
Petronila destaca ainda que, embora o número de mortes por violência no campo tenha diminuído no Amazonas, o número de ocorrências aumentou em 2025. “O Amazonas foi maior em número de ocorrências, mas decresceu em número de assassinatos. Em 2024, houve, salvo engano, quatro assassinatos no estado, e em 2025 foram dois. Então, reduziu o número de assassinatos no Amazonas, mas não em âmbito nacional. Em âmbito nacional, o número duplicou. Aumentou 100%”, relata.
“A gente tinha registrado 13 assassinatos em 2024, e quatro eram no Amazonas, sobretudo no sul do Amazonas. Em 2025, a gente registrou 26 casos de assassinato em todo o território nacional”.
Integrante da Comissão Pastoral da Terra desde 1997 e moradora de uma comunidade do município de Maués, a agricultora Amélia de Souza Gomes também participou do lançamento em Manaus. “A gente, que está lá na base, é que sente fortemente o que é uma ameaça, o que é um sofrimento de ver os nossos irmãos que estão lá, muitas vezes, não terem como denunciar.E a esperança deles somos nós. Eles nos procuram e nós não nos intimidamos. Ao longo de todos os anos, nós não podemos baixar a guarda”, orienta a veterana.
Amélia de Souza Gomes, agricultora e integrante da Comissão Pastoral da Terra 1997
Amélia diz que pretende continuar lutando contra o desmatamento, a grilagem de terra e a violência no campo. “E eu fico muito feliz com essa pastoral existir. Que Deus dê força para que a gente continue nessa caminhada, denunciando, lutando incansavelmente. Eu já estou nos 64 anos e entrei para a Pastoral da Terra em 1997. Muitas caminhadas, muitas lutas aqui com os companheiros também, então isso só nos fortalece”, comemora.
Francisco Alan Lima é membro da CPT do estado do Pará e é articulador da CPTs que compõem a Amazônia. Ele pontua que, na Amazônia, a violência no campo tem características particulares compartilhadas por todos os estados que compõem a região.
“Aqui, os sujeitos que mais são violados em seus direitos relacionados a conflitos no campo são as populações e territórios indígenas, seguidos de comunidades quilombolas e, na sequência, pessoas sem terra ou assentados e posseiros que sofrem essa violação de direitos no campo”, diz.
Francisco Alan Lima, ativista e membro da CPT do Pará e articulador das CPTs que compõem a Amazônia
Francisco também aponta quem são os principais violadores, também desvelando um padrão de personagens. “Fazendeiros, grileiros, garimpos ilegais, empreendimentos, carvoarias, o próprio desmatamento das áreas também viabiliza essa violência no campo. Eles chegam com ações violentas e que acabam, em grande parte, ameaçando pessoas, mas muitas delas perdem a vida, como foi aqui constatado. Dos 26 assassinatos no campo no Brasil que nós tivemos, dois deles ocorreram aqui no estado do Amazonas”, relata.
Para o ativista, o combate à violência no campo deve ocorrer principalmente com a garantia das terras a quem elas pertencem. “O combate à violência no campo perpassa sobretudo pela demarcação dos territórios indígenas, pela regularização fundiária, pela criação de assentamentos e o estado brasileiro atacar as raízes geradoras desses conflitos. Então, se ele faz esse processo de demarcação, de fazer a regularização, de garantir direitos para que essas populações permaneçam nos seus territórios, certamente aí nós vamos ter também esse índice de diminuição da violência no campo”, opina.












Deixe o Seu Comentário