Amazonas lidera alta do café – jcam.com.br

A Conab reforçou suas projeções de crescimento para o cultivo de café no Amazonas. No segundo levantamento para a safra de 2026, divulgado na semana passada, a Companhia Nacional de Abastecimento calcula que a quantidade de sacas de 60 kg beneficiadas deve saltar 33,2%, saindo de 35.200 para 46.900. A estimativa anterior apontava alta de 9,9%, com 38.700 sacas beneficiadas. O Estado aparece com a maior taxa de crescimento do país, embora a produção ainda esteja longe dos picos de 2021 (75.200 sacas) e de 2022 (75.300 sacas), marcados pelo fim da pandemia e pela disparada nos custos de produção.
Embora ainda incipiente, a cultura começa a recuperar terreno no Estado, alimentada por uma conjunção de políticas públicas, pesquisas científicas e tendência de valorização do produto. O ganho no nível de produção se deve, em boa parte, ao aumento proporcional na área total de cultivo. O prognostico da estatal é que o Amazonas deve saltar de 985,5 para 1.692,5 hectares entre uma safra e outra, uma diferença de 71,7%. Em contrapartida, a produtividade deve ir na direção contrária e encolher 22,4%, reduzindo o rendimento médio do parque cafeeiro amazonense de 35,7 para 27,7 sacas por hectare.
O Amazonas (+9,9%) aparece entre as nove unidades federativas com resultados positivos de um ranking que reúne dez Estados. A safra brasileira está estimada em 66,70 milhões de sacas beneficiadas, registrando crescimento de 18%. Caso confirmado, será um novo recorde na série histórica, ultrapassando em 5,74% a safra de 2020 (63,08 milhões). Conforme a Conab, a estimativa é influenciada pela elevação de 3,9% na área em produção (2,343 milhões de hectares) e condições climáticas mais favoráveis registradas ao longo do ciclo da cultura. A adoção de tecnologias e boas práticas de manejo nas lavouras, por outro lado, devem impactar na produtividade (+13% e 34,4 sc/ha).
A maior parte da oferta nacional do produto ainda é da variedade arábica (45,80 milhões de sacas), que deve ter ampliação de 28% neste ano. A Companhia Nacional de Abastecimento destaca que esse tipo de café, que tem sua maior oferta em Minas Gerais, sofre maior influência da “bienalidade positiva” para a presente safra. Já o café conilon (20,90 milhões), que é a espécie cultivada no Amazonas, aparece com acréscimo mais modesto, de 0,8% em todo o país, com aumento de área (+4,4%) e menor produtividade (-3,5%). A maior produção dessa variedade de café vem do Espírito Santo. 
 
“Floresta em pé”
No texto do boletim da sondagem, a Conab ressalta que o Estado tem ampliado gradativamente seu espaço para a cafeicultura. “A marca ‘Café Amazônico’ vem se consolidando e agregando valor ao produto, que é fonte de recurso sustentável aos produtores, principalmente em âmbito familiar, além de trazer consigo um cultivo com características agronômicas e socioambientais agregadoras, tais como: atividade desenvolvida em pequenas áreas, mão de obra prioritariamente dos membros da família, pouco uso de insumos sintéticos, entre outras”, salientou. 
O levantamento informa que o parque cafeeiro do Amazonas deve fechar 2026 somando 4,87 milhões de covas, 5,9% a mais do que em 2025 (4,60 milhões). São 2,99 milhões de covas em produção e 1,88 milhão de covas em formação. “O cultivo fica mais concentrado em Apuí, que é o município detentor da maior área plantada. Ali, se tem o primeiro café 100% robusta orgânico cultivado em agrofloresta na Amazônia brasileira. O café tornou-se umas das alternativas de manter a floresta em pé. O grão até se beneficia dessa condição de manejo dentro da floresta, já que seu plantio sombreado, em meio às árvores, garante mais qualidade e sabor ao café”, informou.
A estatal destaca que o atual ciclo coincide com um “aumento importante” nos preços pagos pelo café, o que estimula ainda mais o produtor local a aumentar a área em produção, com destaque para o incremento nas regiões das bacias do Alto Solimões, Jutaí/Solimões/Juruá, Purus e Madeira. “Vale pontuar a participação da Embrapa, mediante a produção de cultivares de café robusta específicos para as condições amazônicas, garantindo produtividade e adaptabilidade ao ambiente local e as suas particularidades edafoclimáticas e de manejo”, acrescentou.
De acordo com a Conab, a colheita já começou em abril (11.700 sacas), para ser intensificada em maio (23.500 sacas), e concluída em junho (11.700 sacas). “Atualmente, a cultura está em fase final de maturação, preparando-se para a colheita, que deve se estender até agosto/setembro. A condição da cultura é boa, com expectativa de uma safra prolífica. Porém, como há o ingresso de muitas lavouras novas, de primeiro ciclo produtivo, a média da produtividade pode ser reduzida, pois essas plantas jovens ainda estão se desenvolvendo vegetativamente, assim, não conseguem dispender toda sua energia para a produção dos grãos”, acrescentou.
 
“Dinâmica de crescimento”
Em entrevistas anteriores à reportagem, o presidente da Faea, Muni Lourenço, informou que o cultivo do café arábica foi anteriormente abandonado no Estado, em favor do conilon, que “é recomendado para regiões com temperatura mais altas”. Segundo o dirigente, a retomada de produção em 2025 veio após os impactos negativos das estiagens de 2023 e 2024, em um contexto em que a Embrapa já havia desenvolvido introduzindo um café clonal de maior produtividade, a partir de híbridos conhecidos como “robustas amazônicos”. 
Em nova entrevista, Lourenço ressalta que as perspectivas seguem otimistas para atividade, a despeito de eventuais obstáculos ambientais e fundiários. “Essa projeção da Conab está compatível com a dinâmica de crescimento da atividade privada na produção de café em nosso Estado. A cafeicultura vive um momento de expansão acelerada. Muito em função da valorização do café no mercado, e pela disponibilização por pesquisa da Embrapa da variedade de café robusta amazônico, adaptado a nossa região, com alta produtividade e qualidade premium de grãos”, reforçou.
O consultor e especialista na gestão do agronegócio, e também articulista do JC, Thomaz Meirelles, vai na mesma direção. “Fico feliz com esses números positivos. Alguns pontos levam a isso, como a tecnologia da Embrapa e o intercâmbio dos nossos produtores com os de outros Estados, em especial Rondônia. E há a questão de mercado e o fato de a indústria comprar aqui, em Manaus. É uma alternativa de renda para o interior. Temos 80% que preservamos, mas precisamos produzir nos 20% restantes. Espero que continue esse crescimento da produção, que é sustentável. E acredito que já é possível pensarmos em uma indicação geográfica para o café produzido no Amazonas”, arrematou.
Desenvolvido por: Marcelo Leite

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