Manaus Moderna expõe caos com escadas podres e alta de 36% na população de rua – A Crítica

Precariedade estrutural penaliza produtores rurais do interior e comerciantes que pagam taxas sem contrapartida de segurança
Agricultores do interior enfrentam perdas financeiras (Paulo Bindá/A CRÍTICA)
Bem antes do sol nascer, o porto da Manaus Moderna já está bastante movimentado, especialmente por causa da descarga de produtos que desembarcam nas balsas do local. Geralmente no início da semana, a embarcação Souza, de Anori, no interior do estado, atraca na margem do rio Negro, perto da Feira da Banana, após 18 horas de viagem. Desta vez ela veio na capacidade máxima de lotação com frutas, legumes, pescado e outros alimentos.
Ainda no escuro da madrugada e depois de uma viagem cansativa, o agricultor Elizeu Maia tem apenas um objetivo: vender toda a produção o mais rápido possível para que não haja perda mais uma vez. É que, sem qualquer local para armazenar as frutas e legumes assim que a viagem termina, muitas unidades estragam. Isso é recorrente. Mesmo perto de uma feira como a Manaus Moderna, a garantia de compra não é 100% em todas as viagens e o lucro que se esperava dá lugar ao prejuízo.
Caos no Porto da Manaus Moderna afeta feirantes e preocupa comerciantes
 Essa é apenas uma das dificuldades e não está limitada aos produtores rurais do interior. Assim como Elizeu, existem muitos outros que lutam por espaço em um “trânsito” caótico sobre as balsas. Tem que prestar atenção ao redor, mas também no chão da embarcação, geralmente com buracos e diferenças de nível geradas por manutenções (muitas vezes) mal-acabadas. Os obstáculos acompanham o percurso até à rua. A condição das escadas é tão precária que os próprios feirantes se reuniram para mandar construir uma mais nova no local.
Durante o amanhecer, a briga por espaço sai das balsas e vai até à avenida Lourenço da Silva Braga. Caminhões carregados de frutas precisam estacionar e ocupam uma área consideravelmente grande ao redor da feira da Manaus Moderna. Uma das opções para motoristas de veículos menores é chegar mais cedo e, mesmo assim, uma prática se torna quase inevitável: parar em fila dupla para carregar o veículo. É cometer a infração ou perder um dia de trabalho.
Carregadores em situação de vulnerabilidade transportam caixas pesadas sem equipamentos de proteção individual
 A equipe de A CRÍTICA entrou em contato com o dono de uma das balsas atracadas na orla da Manaus Moderna. Ele preferiu não se identificar, mas relatou que há muitas despesas geradas com alvarás e licenças para funcionamento das balsas e não sobra margem de recursos para investir em melhorias das estruturas. Ele cobrou da Prefeitura de Manaus e do Governo do Amazonas parceria para fazer as mudanças.
Se passageiros e comerciantes sofrem no bolso, os carregadores levam o problema nas costas. São cargas e mais cargas todos os dias, uma pressão que representa prejuízos para a saúde deles e, ao mesmo tempo, a única fonte de renda. Se o produto cair ou for danificado, é descontado do valor que recebem no fim do trajeto. A especialista em Segurança do Trabalho, Maria Britto Jefres, disse que a falta de profissionalização começa na ausência de instalações para que possam usar.
Quando o fim do dia chega, mais uma mudança de cenário no entorno do Porto da Manaus Moderna acontece. Aos poucos, aquela movimentação intensa vai se desfazendo e dando lugar a uma região mais deserta, mal iluminada e com uma constante sensação de insegurança. O pior é que não fica só no sentimento.
Situação precária na Manaus Moderna e entorno revela o aumento dos casos de moradores em situação de rua
 Uma loja náutica, na rua dos Barés, foi saqueada por um bando com mais de 20 pessoas em abril deste ano, de acordo com a Polícia Militar do Amazonas (PMAM). As imagens do circuito de segurança do estabelecimento mostraram os suspeitos derrubando um portão, uma grade e quebrando a vidraça do estabelecimento.
Foram roubados diversos produtos, entre eles motores de pequenas embarcações. As autoridades acreditam que criminosos convenceram usuários de drogas em situação de rua a participar da ação.
A equipe de A CRÍTICA conversou com o major da PMAM responsável pela região, Victor Moraes. Ele disse que os índices de criminalidade caíram proporcionalmente em relação ao número de prisões que bateram recorde nos primeiros meses do ano de 2026 em comparação com o ano anterior.
Informou também que os agentes atuam em maior número, com uso de novas tecnologias, incluindo o reconhecimento facial.
Projeto do novo Porto da Manaus Moderna coordenado pelo DNIT será chancelado pelo presidente Lula
 A Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) reconhece a situação delicada. O primeiro trimestre de 2026 teve alta de 36% na quantidade de pessoas em situação de rua na capital amazonense, frente ao mesmo período de 2025. São mais de 3 mil homens e mulheres nessa situação, muitos também são dependentes químicos. Um deles falou com A CRÍTICA, sem se identificar. Ele afirmou que trabalha como carregador para sustentar o vício nas drogas.
A subsecretária da Semasc, Graça Prola, informou que o poder executivo possui estratégias, protocolos e políticas para atender quem está em situação de rua. As ações são desencadeadas em diversas zonas de Manaus, mas o trabalho enfrenta resistência e “compete” com o crime organizado.
A obra, de responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes, pretende mudar toda a região de embarque e desembarque, construir um terminal de espera e uma região para os veículos. Por enquanto não há prazos para o início da nova instalação.
"A falta de estrutura é que não tem como os carregadores trazerem a carga para cá sem a escadaria. [O poder público] só fez até aqui e, quando está seco, lá na praia, temos que fazer escadas de madeira para eles subirem". Eduardo Ferreira, feirante (Paulo Bindá/ A Crítica)
"Essas balsas que cobram, se você entrar com duas caixas aqui, cobram, mas não dão condição para os trabalhadores; escadas podres para descer, já morreu um carregador aqui porque caiu, precisamos de melhoria" Robervaldo Pereira, comerciante (Paulo Bindá/ A Crítica)
"Vai ajudar muito para que possam descansar, se alimentar, tomar um banho. É uma questão de dignidade. Eles também precisam de apoio para criar um movimento de regularização onde trabalhem o justo e recebam o justo." Maria Britto Jefres, especialista em Segurança no Trabalho (Paulo Bindá/ A Crítica)
"Essa semana aí eu fiquei com a minha produção boiada, sem ter onde colocar. Eu tive que deixar um monte de mamão aí, e ele já está barato; uma caixa de 60 kg aqui está custando R$ 30 e não tinha para quem vender" Elizeu Maia, Agricultor (Paulo Bindá/ A Crítica)

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