Lula defende explorar petróleo na Foz do Amazonas “antes que Trump ache que é dele” – ClimaInfo

Há quase quatro meses, aguardamos as diretrizes para a elaboração do mapa do caminho brasileiro para além dos combustíveis fósseis, encomendadas pelo presidente Lula em dezembro do ano passado e que deveriam ter ficado prontas no início de fevereiro. Mas, pelo visto, é mais importante para Lula explorar petróleo e gás fóssil na Foz do Amazonas e em outras bacias da Margem Equatorial – faixa litorânea que se estende do Rio Grande do Norte ao Amapá – do que investir na transição energética. Mesmo diante de toda a ameaça dos combustíveis fósseis à segurança e à soberania energéticas que os ataques dos EUA e de Israel ao Irã escancararam.
O mais curioso é que Lula agora apela à soberania nacional para justificar a defesa da exploração de combustíveis fósseis na região. O “inimigo” do país tem nome e sobrenome: Donald Trump, presidente dos EUA, com quem se reuniu, com pompa e circunstância, no início deste mês, em Washington. Lula disse ter saído “muito satisfeito” do encontro, enquanto Trump usou uma rede social para dizer que a reunião foi “muito boa” e elogiar Lula, chamando o presidente brasileiro de “muito dinâmico”.
No entanto, na 2ª feira (18/5), na Refinaria de Paulínia (Replan) da Petrobras em São Paulo, Lula afirmou que o Brasil deve explorar a Margem Equatorial antes que o presidente dos EUA decida ocupá-la, informam Folha, UOL, g1, InfoMoney, RTP e Guia do Investidor. “A gente vai fazer com a maior responsabilidade do mundo, mas a gente não pode deixar (de usar) uma riqueza que está a quase 500 quilômetros de distância da nossa margem. Daqui a pouco o Trump vem, acha que é dele e vai lá”, afirmou o presidente brasileiro.
Na sequência, Lula lembrou declarações do presidente estadunidense, que insinuou que poderia ocupar o Canadá, a Groenlândia, o Golfo do México e o Canal do Panamá: “Quem é que (garante que) ele não vai dizer que a Margem Equatorial é dele também? Então, nós vamos ocupar.” E afirmou ainda que “ninguém tem mais responsabilidade com a Amazônia” do que o Brasil, dizendo que os recursos da eventual produção de petróleo seriam revertidos para o país.
Que Trump é um projeto mal-ajambrado de tirano global, não há dúvida. E seu apreço desmedido pela indústria dos combustíveis fósseis – que foi uma das maiores financiadoras de sua campanha – explica, por exemplo, a invasão da Venezuela e a prisão de seu presidente, Nicolás Maduro, em janeiro. O mesmo vale para os ataques ao Irã, iniciados em 28 de fevereiro.
Só que Lula defende a exploração de combustíveis fósseis na Foz do Amazonas e em outras bacias da Margem Equatorial muito antes do retorno do “agente laranja” à Casa Branca, em janeiro de 2025. Trump mal tinha tomado posse quando o presidente brasileiro acusou o IBAMA de “lenga-lenga” no licenciamento do poço da Petrobras no bloco FZA-M-59, na Foz. Portanto, apelar aos arroubos tirânicos de Trump é tentar justificar o injustificável em um planeta que precisa urgentemente abandonar petróleo, gás fóssil e carvão para conter a crise climática.
E se o assunto é “soberania”, vale lembrar que em junho de 2025 – ou seja, no governo atual -, a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) promoveu um novo “leilão do fim do mundo” no qual vendeu 19 blocos de exploração na Foz do Amazonas. Destes, 10 blocos foram arrematados pela Petrobras, em parceria com a estadunidense ExxonMobil, e os 9 restantes foram comprados por um consórcio formado por outra petrolífera estadunidense, a Chevron, e pela chinesa CNPC.
Logo, se houver petróleo e gás nessas áreas, boa parte desses combustíveis fósseis vai encher o caixa de empresas estrangeiras. Afora os royalties, sem praticamente nenhuma reversão de dinheiro para o país, muito menos para a Amazônia, já que, sob o regime de concessão, os combustíveis fósseis descobertos pertencem à empresa, que pode levá-los para onde quiser.

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