Concessionária amplia investimentos e reforça ações para reduzir impactos da estiagem e do risco de racionamento
Nas secas de 2023 e 2024, o Amazonas viveu racionamento de energia em São Gabriel da Cachoeira. O transporte de combustíveis ficou prejudicado, impactando a produção de energia (Foto: Juliana Radler / ISA)
Diante da crescente ameaça de um super El Niño no segundo semestre, o setor elétrico do Amazonas já se prepara para evitar racionamento e quedas de energia, como ocorreu nas estiagens históricas de 2023 e 2024. No último dia 1º de junho, o governo do Amazonas decretou emergência climática e ambiental, prevendo cenário semelhante aos anos anteriores.
Nesta semana, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) afirmou que recentes alterações na temperatura da área monitorada no oceano indicam “condições altamente favoráveis à formação e consolidação de um episódio de El Niño nos próximos meses”.
De acordo com o presidente de distribuição da Âmbar Energia, João Pilla, a concessionária do Amazonas já prevê uma série de ações para evitar maiores impactos durante o período.
“Estamos adequando algumas substestações para que a gente possa aumentar a capacidade e evitar corte de carga. Em uma linha específica, que é Manacapuru, estamos querendo construir uma termelétrica pequena, de 5 megawatt, porque, se vier o El Niño, estamos avaliando que Manacapuru pode ser uma cidade que teria corte de energia”, diz.
Na terça-feira (9), a Âmbar detalhou um plano de investimentos de R$ 2,3 bilhões para a concessionária do Amazonas, dois meses após assumir o controle da companhia. A operação inclui a construção de 15 novas subestações na capital e no interior.
Em relação à usina de Manacapuru, o projeto precisará ser aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A proposta da Âmbar é utilizar óleo diesel no abastecimento, combustível mais nocivo em comparação ao gás natural, que já vem sendo usado em outras termelétricas no estado.
“Essa usina em Manacapuru é até 2028, somente para o período em que estaremos ampliando a capacidade de atendimento da região. Faremos a implantação de 100 quilômetros de rede e duas subestações para atender Iranduba e Manacapuru”, explica Pilla.
A Âmbar Energia também informou que já realizou reunião com a Secretaria de Estado de Energia, Mineração e Gás (Semig) e produtores independentes para cobrar o envio antecipado de combustível a cidades do interior, para evitar desabastecimento.
A concessionária atua na distribuição dessas regiões, mas não produz a energia. Em cidades como São Gabriel da Cachoeira e Rio Preto da Eva, o fornecimento depende de produtores locais. Na maior parte dos municípios, a principal fonte é o diesel, cujo transporte fica comprometido com o baixo nível dos rios.
“A Aneel também chamou uma reunião para o próximo dia 22 com todos os produtores independentes e vamos participar também. Como distribuidora, a nossa responsabilidade é cobrar deles, e estamos fazendo isso”, comentou o presidente.
Durante as estiagens históricas de 2023 e 2024, municípios como São Gabriel da Cachoeira e Benjamin Constant enfrentaram racionamento de energia feito por zonas, com cortes que chegavam a seis horas consecutivas. A seca extrema do Rio Negro, que atingiu sua maior vazante em mais de 120 anos, impediu a chegada de balsas com diesel para as usinas termelétricas.
Com a falta de energia para refrigeração de alimentos, por exemplo, houve desabastecimento de frango, legumes e outros itens da cesta básica, com preços que se elevaram drasticamente. Um galão de água de 20 litros passou de R$ 13 a R$ 23, o frango chegou a R$ 15 o quilo e a calabresa variou entre R$ 30 e R$ 36.
Em Benjamin Constant, a Defensoria Pública do Amazonas chegou a instaurar um procedimento de apuração após o racionamento de energia causado pela falta de combustível para a usina termelétrica. Em cada uma das duas estiagens históricas, mais de 800 mil pessoas foram impactadas em todo o estado, o maior número já registrado oficialmente.
À reportagem, o titular da Secretaria de Estado de Energia, Gás e Mineração do Amazonas (Semig), Ronney Peixoto, afirmou que a pasta faz o acompanhamento regular do abastecimento de combustível para as termelétricas do interior. Segundo ele, os sistemas isolados consomem cerca de 1,5 milhão de litros de diesel por dia, o equivalente a 9.434 barris de 159 litros.
“Fizemos uma reunião com todos os produtores independentes para nos anteciparmos em qualquer eventualidade que possa interromper o serviço de energia nos sistemas isolados. Todos têm se preparado, mantendo estoques locais e estoques em trânsito para que possamos nos precaver aos efeitos da estiagem desse ano”, disse ele.
Segundo a Âmbar Energia, o Amazonas possui 93 localidades isoladas, atendidas pela produção independente de termelétricas. Estão no Sistema Interligado Nacional (SIN) de energia apenas Manaus, Manacapuru, Presidente Figueiredo, Itacoatiara, Parintins, Iranduba, Itapiranga e Silves.
O fenômeno climático El Niño começou nesta semana, informou na quinta-feira (11) a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês). Há meses, órgãos de meteorologia do Brasil, dos EUA e da Europa já previam sua ocorrência. Ainda não há clareza sobre a intensidade, mas estimativas indicam que o evento pode ser histórico.
A agência estima que poderá se tornar muito forte entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os mais intensos registrados desde o início das medições em 1950.
Em seu último relatório, os cientistas da NOAA observaram que “durante o último mês desenvolveram-se condições típicas de El Niño”, como indicam as temperaturas da superfície do mar acima da média no Pacífico.
“Há 63% de probabilidade de que ocorra um fenômeno El Niño muito intenso entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os episódios mais fortes registrados desde 1950”, destacou.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento ds águas do Oceano Pacífico, o que provoca a redução de chuvas e a intensificação da seca na Amazônia. Em outras regiões do país, como o sul, o efeito é o contrário: há maior volume de chuvas, aumentando o risco de enchentes de grande impacto.











Deixe o Seu Comentário